Texto 1: Contrato de Leitura e a Multiplicidade de Vozes do Jornal A Gazeta do Espírito Santo (Dissertação - UFF). Autora: Vanessa Maia Barbosa de Paiva Rangel/Ano: 2002/ 106 p.
A dissertação se propôs a analisar as estratégias e mudanças ocorridas nas páginas de A Gazeta, jornal líder por 72 anos no Espírito Santo, para combater seu principal concorrente, o jornal A Tribuna. Neste percurso ela aponta as consequências desta modificação, explicada pela teoria de Contrato de Leitura de Eliseo Verón, que aponta a leitura com o elo entre o discurso de veículo e os seus leitores.
O trabalho foi dividido em cinco partes, sendo a primeira referente a contextualização do objeto, situado no mercado capixaba de comunicações. Logo em seguida, ela expõe o principal motor das mudanças na Gazeta, o seu concorrente A Tribuna. Os aspectos teóricos são expostos nos 3º capítulo quando a autora buscou sustentar seus argumentos com base nas ideias de Eliseo Verón, sobre o contrato de leitura, e de Humberto Eco, com a ideia de leitor-modelo. Nos capítulos 4º e 5º ela apresenta a metodologia e a análise do objeto comparativo, entre os jornais A Gazeta e A Tribuna. Este conteúdo poderia ser condensado em apenas um capítulo. No último tópico a autora apresenta suas considerações sem explorar com muita clareza um dos principais instrumentos do seu trabalho, o manual de redação da reforma de 1999 do jornal – enviado para os anexos.
A questão central da pesquisa é entender como a reforma estética e editorial de 1999 acentuou a perda de público do jornal A Gazeta, pertencente ao grupo de maior destaque no Espírito Santo, em face o concorrente A Tribuna.
A hipótese do texto é que ao procurar ampliar o número de leitores, de forma a recuperar a liderança de mercado A Gazeta quebrou o contrato de leitura mantido com o público habitual, situado nas classes mais favorecidas. O jornal passou de um veículo voltado a classes letradas, com manchetes sobre política e economia, para um público mais difuso e popular, abordando temas como esporte, violência para satisfazê-lo. Neste ato o jornal teria perdido sua identidade, sustenta a autora, e provocado uma migração de leitores para A Tribuna.
Para evidenciar este argumento, a autora prioriza a análise comparativa de textos (capas e manchetes) entre os dois periódicos nos anos 1980 e na fase de maior mudança de A Gazeta, a reforma gráfica e editorial de 1999. Como categorias para realizar esta análise, foram elencadas: similitudes, fidelidade ao perfil do jornal, descolamentos de sentido e fait-divers.
A argumentação chega a ser contraditória, pois a autora indica que por quebrar o contrato de leitura que tem com seus atuais leitores, A Gazeta perdeu espaço. Por outro lado, ela demonstra que a trajetória de A Tribuna foi de rupturas e quebras de contratos, pois o jornal iniciou como popular, tornou-se sensacionalista, em uma época de crise, e depois passou a ser mais didático e estratégico para com um determinado público, que ficou menos genérico. As modificações técnicas e as inovações em marketing garantiram uma expansão no mercado de A Tribuna. Este raciocínio pode induzir ao entendimento de que a estratégia de sucesso de A Tribuna é semelhante A Gazeta, sendo que esta provocou uma ruptura mais pontual, enquanto A Tribuna viveu em intensa modificação ao longo dos anos.
Em alguns momentos a pesquisadora ultrapassa determinadas fronteiras de distanciamento da pesquisa e faz sugestões e ou defesas sem tantas argumentações, conforme os trechos abaixo:
A) A sugestão para solucionar os problemas da Rede Gazeta de Comunicações, p.41:
“A Rede Gazeta precisa se aliar aos grandes grupos de mídia para não perder o mercado que tem no Espírito Santo. Durante muito tempo esta empresa tentou voar sozinha, mas como na mitologia de Ícaro,o sol lhe queimou as asas e ela, agora, começa a ter problemas.
Para reverter esse quadro, precisa seguir o receituário internacional de oligopólios, fusões e incorporações, e desta forma, manter-se de pé. Depois de perder as asas no calor do sol globalizante, a RGC precisa agora perder o rosto para sobreviver”.
B) Na conclusão (p. 106) a autora dá indícios de um partidarismo em relação aos dois jornais: “Ao tentar construir uma nova identidade para si, A Gazeta, não se deu conta de que perdeu a sua própria, edificada ao longo de 60 anos. E como sempre esteve calcificada em um local confortável de primeiro lugar, agora, tem dificuldades de se movimentar em face à concorrência, ágil, célere e nem tão mentirosa assim”.
A temática do Jornalismo Regional desenvolvida na dissertação dialoga com a proposta desenvolvida na minha pesquisa. Algumas informações como a porcentagem de 30% que a RBS detem das TVs do Sistema Gazeta; o cortejo (e a conquista) a Roberto Marinho, tramada na rede de contatos pessoais das famílias Lindenberg e Marinho, para concessão da Rede Globo; A família proprietária da fábrica do cimento Nassau (Recife) possui rede de comunicação no Recife e implantou uma rede no Espírito Santo, com a TV Tribuna (SBT) e a Radio Tribuna (FM). As concessões foram resultado da articulação desta família com os políticos em Brasília. Todas estas questões apontam as particularidades de formação do nosso sistema midiático nacional e regional. A gestão familiar presente no controle dos veículos da Rede Gazeta de Comunicações e a sua dificuldade de manutenção no atual sistema brasileiro remontam questionamentos entre os vínculos destes grupos regionais/familiares com o poder político. Quanto maior o vínculo direto entre os proprietários de mídia com a política, maiores são suas condições de sobrevivência neste mercado.
Texto 2: “Gente de toda parte foi ver o ex-metalúrgico virar presidente da República” A narrativa da posse de Lula na Folha de S. Paulo e em O Globo Autora Ariane Diniz Holzbach/ Ano: 2008(Dissertação – UFF)
A pesquisadora parte de uma questão pontual, a cobertura dos rituais políticos, para discutir a complexa relação entre mídia e política no Brasil. Com a análise das narrativas de O Globo e da Folha de S. Paulo sobre a primeira posse do presidente Lula, em 2003, a autora trás como questão central a forma como os veículos midiáticos constroem uma mediação da política com o público leitor/eleitor e estabelecem sentidos sobre a democracia.
A imprensa é colocada em um local privilegiado na dissertação, sendo apontada como o elo entre o ritual de posse e sua significação, a democracia e o público. Indício apontado na própria estrutura do texto que tem a temática dos rituais no primeiro capítulo, seguida por uma reflexão sobre a imprensa e seu local de mediadora de poder na contemporaneidade. Por fim, parte para uma análise envolvendo os dois elementos anteriores em um corpus com potencialidade para mostrar a heterogeneidade da mídia brasileira.
Sua hipótese central é de que cada jornal ofereceu ao seu público uma leitura própria do ritual de posse, obedecendo sua trajetória e formação no cenário midiático brasileiro. O Globo foi apontado como sensacionalista, analisando a posse por um viés personalista, emotivo, enquanto a Folha ocupou um local mais elitista, compondo textos informativos e analíticos.
A comprovação desta hipótese envolveu um mapeamento das matérias das edições de 02 de janeiro nos dois jornais para com a posse presidencial, observando a narrativa textual e imagética que ambos esboçaram para com o tema. Buscou-se também o enquadramento recebido, a partir de três categorias (pertinentes) apontadas como os principais elementos constitutivos da democracia representativa: o mandato representativo, a alternância de poder e o caráter popular. A comparação destes recortes nos dois jornais expôs que mesmo possuindo características próximas (como o público segmentado nas classes A e B, a expressiva tiragem na região Sudeste) mostrou que é possível usar a tutela do jornalismo para expor perspectivas particulares de cada grupo de comunicação.
Ao tomar os veículos de comunicação como parte integrante para a eficácia do ritual de posse, caberia uma verificação mais acurada sobre a representatividade de ambos os jornais no cenário midiático nacional. O Globo, por exemplo, não chega a todas as unidades da federação, em seu formato impresso, desde 2002 não é vendido em bancas do Maranhão, por exemplo. Partindo do pressuposto que a mídia, em especial o jornal, consolida o sentimento de nação (conforme Benedict Anderson já havia preconizado) seria relevante verificar sua penetração em outros lugares. Outra sugestão diz respeito a um possível mapeamento da reprodução deste conteúdo sobre a posse publicado nos veículos que assinam o conteúdo dos dois jornais por meio das agências Globo e Folha.
Há um diálogo entre esta pesquisa e a minha proposta para tese – que amplia alguns questionamentos feitos na dissertação. A) diz respeito a heterogeneidade da mídia brasileira, que mesmo diante de momentos como os rituais, evidencia a notícia de acordo com seus pressupostos/interesses. Isso pode ser ampliado para além destes momentos de liminaridade, conforme minha pesquisa inicial; B) o relevo das questões da cultura interna de valores do veículo e o impacto na produção da notícia. O que é potencializado quando se efetiva estudos comparativos; C) Compartilho com a autora a postura crítica em relação ao poder de moldagem que a mídia tem diante do cotidiano, bem como da necessidade de se entender seu funcionamento.
Texto 3: UMA CONVERGÊNCIA DIVERGENTE: a centralidade da TV aberta no setor audiovisual brasileiro (Tese-UFBA). Autora: Suzy dos Santos/ Ano: 2004/ 270 p.
Santos (2004) aborda a questão da convergência na mídia brasileira a partir da TV aberta e problematiza a sua viabilidade dentro do contexto da radiodifusão, telecomunicações e vontades políticas existentes no país. Sua pesquisa busca apresentar as contradições entre “as previsões convergentes e a concretização de posições divergentes entre estes setores”. A fim de efetivar esta análise ela compila dados sobre leis, concessões e mapeia o cenário, as estruturas do mercado brasileiro de mídia e suas relações político-econômicas. Todo este olhar panorâmico é baseado no enfoque dos estudos de Economia Política da Comunicação, corrente à qual a pesquisadora enfatiza pertencer e trilhar desde o inicio de suas investigações acadêmicas.
A pesquisa foi exposta em quatro capítulos, sendo função dos dois primeiros apresentar o contexto da TV aberta no século XX. No segundo ela anuncia os papéis ocupados pela TV, suas mudanças e tensões no mercado capitalista. A segunda parte contempla uma síntese dos atores públicos e privados e suas correlações na configuração da TV brasileira. Santos apresenta um valioso mapa de vínculos entre o atores da mídia, destacando as relações entre os políticos, os proprietários de TV (em toda sua diversidade, atendendo desde os representante das TVs religiosas aos prefeitos donos de retransmissores de TV no interior do país) e a consequência deste apadrinhamento e lógica econômica para o elo mais fraco desta relação, o público.
A hipótese central do trabalho defende que os laços que envolvem econômica e politicamente a televisão aberta determinaram sua centralidade no sistema audiovisual. “Esta centralidade, consolidada ao longo do tempo foi pautada por duas funções hegemônicas: uma, de integração social e outra, de manutenção da esfera de poder político e econômico”. Esta composição do sistema de televisão representa, segundo a autora,a principal barreira às possibilidades de convergência, dificultando o acesso de novos atores ao acesso universal às novas tecnologias e à re-regulamentação do setor. Santos assinala que apesar das crises econômicas e do novo cenário de opções de entretenimento advindos com a internet a TV ainda tende a ser hegemônica e determinará condições para a convergência de alguns segmentos da mídia.
A autora conclui que a convergência inevitável das comunicações a partir da TV, divergiu, pela supremacia da TV aberta: “a convergência entre comunicação de massa, telecomunicações e informática não pode ser observada apenas como uma tendência inexorável da tecnologia ou da economia global. As barreiras sociais, políticas e econômicas que estão profundamente arraigadas nos contextos locais não podem ser ultrapassadas sem uma ampla discussão dos elementos compositivos deste panorama que, no caso brasileiro, têm seu âmago definitivo na centralidade da televisão aberta no setor audiovisual brasileiro”.
A densa discussão feita ao longo do texto sobre a tradição dos estudos de econômica política e a própria contextualização dos cenários e personagens que envolvem a TV aberta e seu mercado demandavam uma análise mais explanatória acerca de questões da convergência e ou de processos referentes à interface da TV com cinema, publicidade, internet e outros suportes multimídia.
O olhar destinado a formação e consolidação dos grupos midiáticos brasileiros, os jogos políticos e econômicos que permeiam esta relação são de grande valia para a pesquisa que desenvolverei ao longo da minha tese. O percurso da autora para consolidação de um banco de dados foi significativo como índice no mapeamento da mídia brasileira (e seus grupos dominantes) nas instituições oficiais como Anatel e Ministério das Comunicações.