segunda-feira, 16 de maio de 2011

Resenhas Selene

   
A morte do Rádio?

“Rádio na internet ainda é rádio?”, a reconfiguração do rádio e os desafios que a tecnologia apresenta para este veículo, com a chegada da escuta musical via computador e aparelhos reprodutores como MP3 Player, aliada ao compartilhamento de arquivos musicais, é o foco principal da dissertação de mestrado apresentada em 2010 por Jefferson Mickselly Silva Chagas no PPGCOM da UFF.

Intitulada “Rádio em tempos de Download: a reconfiguração do rádio FM musical diante das novas tecnologias da informação e da comunicação”, a pesquisa apresenta algumas considerações relevantes sobre como o rádio surgiu e se tornou um dos meios de comunicação de massa mais populares. O texto aborda ainda os caminhos que levaram à mudança da comunicação falada e exclusiva entre dois interlocutores para um sistema que privilegia a execução musical e se torna vitrine para a indústria fonográfica, sem deixar de lado o papel de informar (e portanto falar) e a idéia de comunicação na qual um fala para muitos. Contudo, diante dos novos paradigmas fica a dúvida se o que vem sendo chamado de rádio na internet realmente o é.

Para trabalhar essa temática, a discussão principal se dá em torno das adaptações feitas por rádios com programações voltadas para a execução musical. A partir do estudo de dois casos, as rádios Oi FM e MPB FM, o autor problematiza as questões que vão caracterizar algumas das estratégias utilizadas para manter a audiência e lidar com as inovações tecnológicas no campo da produção e distribuição musical.

Considerando a primeira como uma estação mais voltada para o público jovem que optou por investir mais fortemente na tecnologia mobile visando criar identificação e proporcionar mecanismos de interação, o autor analisa a estrutura da Oi FM e leva em consideração o fato de se tratar de uma emissora patrocinada por uma empresa de telefonia, percepção fundamental para compreender as estratégias utilizadas por ela para atrair seu público e se relacionar com ele.

Já no segundo caso trabalhado pelo autor, a plataforma utilizada foi a internet. Além de apresentar um panorama sobre a MPB FM, o autor analisa de que forma o uso do site, e de diversas outras ferramentas que se desdobram através dele, possibilita ao ouvinte uma experiência diferente com o rádio, quando ele pode interagir, manter alguma espécie de contato e se sentir participante através do próprio site, ou mesmo da presença da emissora em determinadas redes sociais.

Para dar conta destas questões um dos principais conceitos presentes é o de “remediação” proposto por Bolter e Grusin (2000), através do qual se sustenta a idéia contrária à uma possível “morte” do rádio. Outra consideração importante diz respeito ao relacionamento entre emissoras e indústria fonográfica, onde em um momento era a execução de uma música na rádio que fazia dela um sucesso e em outro são as gravadoras que decidem qual faixa vai ser tocada e se tornar sucesso.

Desta forma vemos que as regras do jogo podem se modificar, mas isso não significa um fracasso da tecnologia. Ouvir uma nova música na rádio “libera” o ouvinte de ter que procurar por novidades na web, ela simplesmente toca e pode agradar ou não.  Depois de ouvida, aí sim, será buscada e gravada p/ execução no MP3 Player caso tenha agradado. Mas o rádio permanece, mesmo que em tempos de internet, como uma fonte de novidades, um instrumento sempre pronto a ser executado. Uma coisa interessante neste sentido é justamente este caminho oposto, quando uma música chega ao ouvinte via rádio e depois assume maiores proporções, ao ponto de alcançar projeção na própria internet, de onde geralmente elas saem.

Uma diferenciação interessante feita pelo autor, diz respeito à proposta geral de cada iniciativa. Ele apresenta a Oi FM focada na interatividade, voltada para a personalização, já que trabalha tanto com as aplicações para celular. Enquanto que no caso da MPB FM nota-se que a proposta visa o fomento da participação coletiva.

Dentre as diversas análises apresentadas, talvez uma que tenha ficado um tanto negligenciada é a presença da Webcam nos estúdios enquanto estratégia de criar vínculo com o público. Apesar das emissoras analisadas não fazerem uso deste sistema, um questionamento mais aprofundado acerca disso poderia contribuir para um crescimento do conteúdo como um todo. Os motivos para a não adoção desta “moda” e se são conscientes ou inconscientes seria uma possibilidade de investigação interessante. Pensar o que as pessoas podem querer ver com as imagens do rádio, se realmente estão dispostas a dispor de algum tempo assistindo algo que pode ser simplesmente ouvido, e outras diversas questões.

Ao tratar da ressignificação do rádio e seguindo por todo o percurso traçado pelo autor, temos uma comparação válida que teria sido interessante se mais desenvolvida, trata-se das semelhanças e diferenças entre Webrádios, rádios piratas e os primeiros radioamadores. Podemos encontrar nesses três casos o desejo de estar em contato com outros, trocar informações e/ou publicizar notícias e músicas.

Vale ressaltar, ainda, alguns aspectos da pesquisa alvo desta resenha que se mostraram de grande interesse para outros estudos sobre mídia e música. Se pensarmos a relação entre rádio e religião e focarmos nas emissoras católicas, é possível notar alguns pontos de congruência com ambas as rádios estudadas por Jefferson.

A questão do patrocínio na Oi FM, por exemplo, tem sua correlação se pensarmos que, assim como a Oi FM não tem comerciais de outras operadoras de telefonia em sua grade, as emissoras católicas não veiculam propagandas de outras denominações religiosas e também não transmitem comerciais de produtos e/ou serviços que vão de encontro aos preceitos da religião. O que demonstra como os valores de uma empresa de comunicação são significativos na definição da grade de programação. Entretanto, diferentemente das emissoras puramente comerciais, em muitos casos, as rádios voltadas para a religião são completamente financiadas através de doações dos ouvintes, o que acaba sendo a renda principal e faz da publicidade algo secundário, quando existe.

Outro paralelo diz respeito à segmentação. Um mecanismo comum entre emissoras de rádio para garantir a fidelidade do público é segmentá-lo e distribuí-lo entre as estações do dial. O fato de termos rádios da religião “X” ou “Y” já é uma primeira segmentação clara, mas ainda dentro deste nicho podemos encontrar outras subdivisões estilísticas seja pela grade de programação, seja pelas estações em si.

Ao pensarmos no caso da MPB FM, que atua com força em seu site e nas redes sociais, também é possível verificar associações com as estratégias utilizadas pelas emissoras católicas. Em ambos os casos a proximidade entre emissora, artistas e público é fomentada, seja através da escuta online, da participação em salas de bate-papo voltadas para os programas no ar, do contato via email ou da troca de mensagens em redes sociais. Através da internet o ouvinte pode fazer pedidos de oração que são lidos no ar, oferecer músicas, votar nas melhores e participar de promoções para ganhar brindes.

O site funciona também como canal de divulgação dos artistas e ponto de contato entre eles e o público, já que são disponibilizadas informações sobre as músicas, bandas e cantores. Em muitos casos, como, por exemplo, nas rádios do Sistema Canção Nova de Comunicação, alguns programas são apresentados pelos próprios artistas, como acontece também na MPB FM no caso da Noite Preta (com a cantora Preta Gil). Aliado a internet, a rádio torna-se uma via para que o público consiga entrar em contato com o artista.

Enfim, as análises feitas por Chagas se mostram como um estudo relevante para auxiliar na compreensão do novo momento que o rádio tem experimentado e permite também contrapor as idéias alarmistas nas quais se apregoa a extinção do rádio como processo inevitável. Apresenta-se como uma linha de pensamento consciente e atenta às ressignificações e reordenações do mundo midiático.


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Cinema e mercado (com uma pitada de música)

Através de uma analise que compreender a formação da indústria cinematográfica nacional e sua relação como mercado até a atualidade, Lia Bahia constrói sua dissertação de mestrado apresentada ao PPGCOM da UFF com o título “Uma análise do campo cinematográfico brasileiro sob a perspectiva industrial”. A experiência pessoal como funcionária da Ancine foi o ponto de partida para as primeiras observações e questões que deram origem ao trabalho apresentado por ela.
            Para situar o leitor, o texto parte de uma abordagem histórica sobre como o cinema se desenvolveu no Brasil, especialmente entre os anos 1930 e 1990, sua relação com o Estado e os grupos que faziam e pensavam cinema na época. O processo histórico ressalta a relação que a produção cinematográfica brasileira sempre teve com os projetos estatais de reforçar a idéia de nação, a identidade do brasileiro. A autora ressalta, ainda os momentos em que importantes organismos foram criados, como por exemplo, o INC (Instituto Nacional de Cinema), Embrafilmes, Ministério das Comunicações, Funarte, Radiobrás, Telebrás. Trabalha os períodos pelos quais o cinema passou em relação à situação política do Brasil e de como era a produção cinematográfica antes, durante e depois da ditadura. Como os discursos culturais e políticos se estruturavam e de que forma isso afetava o cinema nacional.
            Os anos 90 são caracterizados como o período em que a cultura ganha um novo olhar, surgem leis de incentivo e um novo tipo de relação entre Estado e cultura que proporciona ao cinema um período conhecido como “retomada do cinema brasileiro”, não uma retomada enquanto proposta estética ou política, mas em virtude do financiamento e conseqüente aumento das produções, bem como de público. Além disso, a pesquisa ainda apresenta dados sobre o consumo de cinema em diversos períodos diferentes e comenta a relação com a televisão, ressaltando a perda de espaço que o cinema teve por causa dela, para o home-vídeo e outras formas de lazer.
            Após uma apresentação, alguns questionamentos e colocações acerca da legislação de incentivo à cultura atual, das fontes de financiamento, agências reguladoras, relação entre televisão e cinema, bem como ambos são tratados e enxergados pelo governo e pelos grupos organizados que pensam e discutem o setor audiovisual, a autora direciona seu foco para o mercado, a indústria cultural e a forma como o audiovisual se insere nela. Ela ressalta que na cadeia produtiva do cinema o setor da produção é o mais privilegiado pelo governo, enquanto distribuição e exibição ficam em segundo plano.
É importante ter em mente que os sistemas de regulação na área da cultura são mecanismos muito complexos porque, geralmente, de alguma forma, lidam com o subjetivo e regular esse tipo de meio é uma tarefa árdua. Não ignoramos com isso o fato de que certos temas são simples e poderiam ser definidos mais objetivamente, mas em outras questões as opiniões são divergentes e chegar a um consenso é sempre um grande desafio.
Este trecho da análise possibilita uma série de comparações com o meio musical. Por exemplo, se compararmos os investimentos feitos atualmente na produção cinematográfica com os da produção fonográfica veremos uma diferença gritante. Os apoios e patrocínios no setor audiovisual se mostram mais freqüentes e significativos que no setor musical. Sem esquecer que o mercado cinematográfico possui uma dinâmica diferente da praticada no fonográfico, é interessante pensar acerca das relações que podem ser estabelecidas entre ambos. Podemos dizer que o movimento é inverso: enquanto na música a primeira etapa é a produção no suporte que o público vai comprar e depois tem início a etapa do espetáculo para o qual o público vai se dirigir (o show), no caso do cinema temos primeiro a exibição em uma sala (o espetáculo), para depois o filme ser comercializado em home-video.
Assim como na indústria fonográfica, o mercado do cinema também precisa conviver com o “poderio” das majors, entretanto, sua natureza e os custos de produção, bem como os meios de distribuição ainda não conferiram a ele o processo de mudança que o mercado da música vem atravessando atualmente.
Além dessa relação com a indústria, a autora também dedica boa parte de sua pesquisa à relação entre cinema e televisão. Ela atenta para diversos fatores relativos aos contatos entre esses meios, em especial o papel das organizações Globo com a TV Globo e a Globo Filmes que atuam em ambos os setores. Seu trabalho questiona de forma consciente a presença de produção cinematográfica nacional na TV aberta e problematiza diversos aspectos referentes à presença (ou seria melhor dizer ausência?) do Estado enquanto regulador, ao espaço que o filme nacional encontra na televisão, ao padrão estabelecido pela emissora e conhecido como “padrão Globo de qualidade”, dentre outros fatores. Considera ainda as trocas que estão acontecendo atualmente entre os meios: a televisão se apropriando de técnicas de cinema e o cinema das utilizadas na televisão.
Ao falar das estratégias do cinema em relação ao sentimento de identidade nacional, Bahia nos lembra que a identidade é construída não apenas por aquilo que se é, mas também por aquilo que não se é, sendo assim, ao relacionarmos esta idéia com a música religiosa, teremos, por exemplo, que a música católica o é por ser ligada à Igreja Católica e também porque não é a evangélica, nem a secular ou outra classificação. Contudo, podemos notar neste caso uma questão que merece mais reflexão. Quando pensamos na música católica produzida para o mercado vemos estes conceitos um pouco misturados, afinal alguns músicos procuram mascarar a diferenciação, como é o caso dos que preferem utilizar letras que não os caracterizem como religiosos num primeiro momento. A forma como essa situação se desenvolve e pode ser analisada, no entanto é tema para estudos mais aprofundados do que a presente resenha.

domingo, 15 de maio de 2011

textos Pamela Compilados


Texto 1: Contrato de Leitura e a Multiplicidade de Vozes do Jornal A Gazeta do Espírito Santo (Dissertação - UFF). Autora: Vanessa Maia Barbosa de Paiva Rangel/Ano: 2002/ 106 p.

A dissertação se propôs a analisar as estratégias e mudanças ocorridas nas páginas de A Gazeta, jornal líder por 72 anos no Espírito Santo, para combater seu principal concorrente, o jornal A Tribuna. Neste percurso ela aponta as consequências desta modificação, explicada pela teoria de Contrato de Leitura de Eliseo Verón, que aponta a leitura com o elo entre o discurso de veículo e os seus leitores.
O trabalho foi dividido em cinco partes, sendo a primeira referente a contextualização do objeto, situado no mercado capixaba de comunicações. Logo em seguida, ela expõe o principal motor das mudanças na Gazeta, o seu concorrente A Tribuna. Os aspectos teóricos são expostos nos 3º capítulo quando a autora buscou sustentar seus argumentos com base nas ideias de Eliseo Verón, sobre o contrato de leitura, e de Humberto Eco, com a ideia de leitor-modelo. Nos capítulos 4º e 5º ela apresenta a metodologia e a análise do objeto comparativo, entre os jornais A Gazeta e A Tribuna. Este conteúdo poderia ser condensado em apenas um capítulo. No último tópico a autora apresenta suas considerações sem explorar com muita clareza um dos principais instrumentos do seu trabalho, o manual de redação da reforma de 1999 do jornal – enviado para os anexos.
A questão central da pesquisa é entender como a reforma estética e editorial de 1999 acentuou a perda de público do jornal A Gazeta, pertencente ao grupo de maior destaque no Espírito Santo, em face o concorrente A Tribuna.

A hipótese do texto é que ao procurar ampliar o número de leitores, de forma a recuperar a liderança de mercado A Gazeta quebrou o contrato de leitura mantido com o público habitual, situado nas classes mais favorecidas. O jornal passou de um veículo voltado a classes letradas, com manchetes sobre política e economia, para um público mais difuso e popular, abordando temas como esporte, violência para satisfazê-lo. Neste ato o jornal teria perdido sua identidade, sustenta a autora, e provocado uma migração de leitores para A Tribuna.

Para evidenciar este argumento, a autora prioriza a análise comparativa de textos (capas e manchetes) entre os dois periódicos nos anos 1980 e na fase de maior mudança de A Gazeta, a reforma gráfica e editorial de 1999.  Como categorias para realizar esta análise, foram elencadas: similitudes, fidelidade ao perfil do jornal, descolamentos de sentido e fait-divers.

A argumentação chega a ser contraditória, pois a autora indica que por quebrar o contrato de leitura que tem com seus atuais leitores, A Gazeta perdeu espaço. Por outro lado, ela demonstra que a trajetória de A Tribuna foi de rupturas e quebras de contratos, pois o jornal iniciou como popular, tornou-se sensacionalista, em uma época de crise, e depois passou a ser mais didático e estratégico para com um determinado público, que ficou menos genérico. As modificações técnicas e as inovações em marketing garantiram uma expansão no mercado de A Tribuna. Este raciocínio pode induzir ao entendimento de que a estratégia de sucesso de A Tribuna é semelhante A Gazeta, sendo que esta provocou uma ruptura mais pontual, enquanto A Tribuna viveu em intensa modificação ao longo dos anos.
Em alguns momentos a pesquisadora ultrapassa determinadas fronteiras de distanciamento da pesquisa e faz sugestões e ou defesas sem tantas argumentações, conforme os trechos abaixo:
A) A sugestão para solucionar os problemas da Rede Gazeta de Comunicações, p.41:
“A Rede Gazeta precisa se aliar aos grandes grupos de mídia para não perder o mercado que tem no Espírito Santo. Durante muito tempo esta empresa tentou voar sozinha, mas como na mitologia de Ícaro,o sol lhe queimou as asas e ela, agora, começa a ter problemas.
Para reverter esse quadro, precisa seguir o receituário internacional de oligopólios, fusões e incorporações, e desta forma, manter-se de pé. Depois de perder as asas no calor do sol globalizante, a RGC precisa agora perder o rosto para sobreviver”.

B) Na conclusão (p. 106) a autora dá indícios de um partidarismo em relação aos dois jornais: “Ao tentar construir uma nova identidade para si, A Gazeta, não se deu conta de que perdeu a sua própria, edificada ao longo de 60 anos. E como sempre esteve calcificada em um local confortável de primeiro lugar, agora, tem dificuldades de se movimentar em face à concorrência, ágil, célere e nem tão mentirosa assim”.

A temática do Jornalismo Regional desenvolvida na dissertação dialoga com a proposta desenvolvida na minha pesquisa. Algumas informações como a porcentagem de 30% que a RBS detem das TVs do Sistema Gazeta; o cortejo (e a conquista) a Roberto Marinho, tramada na rede de contatos pessoais das famílias Lindenberg e Marinho, para concessão da Rede Globo; A família proprietária da fábrica do cimento Nassau (Recife) possui rede de comunicação no Recife e implantou uma rede no Espírito Santo, com a TV Tribuna (SBT) e a Radio Tribuna (FM). As concessões foram resultado da articulação desta família com os políticos em Brasília. Todas estas questões apontam as particularidades de formação do nosso sistema midiático nacional e regional. A gestão familiar presente no controle dos veículos da Rede Gazeta de Comunicações e a sua dificuldade de manutenção no atual sistema brasileiro remontam questionamentos entre os vínculos destes grupos regionais/familiares com o poder político. Quanto maior o vínculo direto entre os proprietários de mídia com a política, maiores são suas condições de sobrevivência neste mercado.



Texto 2: “Gente de toda parte foi ver o ex-metalúrgico virar presidente da República” A narrativa da posse de Lula na Folha de S. Paulo e em O Globo Autora Ariane Diniz Holzbach/ Ano: 2008(Dissertação – UFF)

A pesquisadora parte de uma questão pontual, a cobertura dos rituais políticos, para discutir a complexa relação entre mídia e política no Brasil. Com a análise das narrativas de O Globo e da Folha de S. Paulo sobre a primeira posse do presidente Lula, em 2003, a autora trás como questão central a forma como os veículos midiáticos constroem uma mediação da política com o público leitor/eleitor e estabelecem sentidos sobre a democracia.
A imprensa é colocada em um local privilegiado na dissertação, sendo apontada como o elo entre o ritual de posse e sua significação, a democracia e o público. Indício apontado na própria estrutura do texto que tem a temática dos rituais no primeiro capítulo, seguida por uma reflexão sobre a imprensa e seu local de mediadora de poder na contemporaneidade. Por fim, parte para uma análise envolvendo os dois elementos anteriores em um corpus com potencialidade para mostrar a heterogeneidade da mídia brasileira.
Sua hipótese central é de que cada jornal ofereceu ao seu público uma leitura própria do ritual de posse, obedecendo sua trajetória e formação no cenário midiático brasileiro. O Globo foi apontado como sensacionalista, analisando a posse por um viés personalista, emotivo, enquanto a Folha ocupou um local mais elitista, compondo textos informativos e analíticos.
A comprovação desta hipótese envolveu um mapeamento das matérias das edições de 02 de janeiro nos dois jornais para com a posse presidencial, observando a narrativa textual e imagética que ambos esboçaram para com o tema. Buscou-se também o enquadramento recebido, a partir de três categorias (pertinentes) apontadas como os principais elementos constitutivos da democracia representativa: o mandato representativo, a alternância de poder e o caráter popular. A comparação destes recortes nos dois jornais expôs que mesmo possuindo características próximas (como o público segmentado nas classes A e B, a expressiva tiragem na região Sudeste) mostrou que é possível usar a tutela do jornalismo para expor perspectivas particulares de cada grupo de comunicação.
Ao tomar os veículos de comunicação como parte integrante para a eficácia do ritual de posse, caberia uma verificação mais acurada sobre a representatividade de ambos os jornais no cenário midiático nacional. O Globo, por exemplo, não chega a todas as unidades da federação, em seu formato impresso, desde 2002 não é vendido em bancas do Maranhão, por exemplo. Partindo do pressuposto que a mídia, em especial o jornal, consolida o sentimento de nação (conforme Benedict Anderson já havia preconizado) seria relevante verificar sua penetração em outros lugares. Outra sugestão diz respeito a um possível mapeamento da reprodução deste conteúdo sobre a posse publicado nos veículos que assinam o conteúdo dos dois jornais por meio das agências Globo e Folha.
Há um diálogo entre esta pesquisa e a minha proposta para tese – que amplia alguns questionamentos feitos na dissertação. A) diz respeito a heterogeneidade da mídia brasileira, que mesmo diante de momentos como os rituais, evidencia a notícia de acordo com seus pressupostos/interesses. Isso pode ser ampliado para além destes momentos de liminaridade, conforme minha pesquisa inicial; B) o relevo das questões da cultura interna de valores do veículo e o impacto na produção da notícia. O que é potencializado quando se efetiva estudos comparativos; C) Compartilho com a autora a postura crítica em relação ao poder de moldagem que a mídia tem diante do cotidiano, bem como da necessidade de se entender seu funcionamento.

Texto 3: UMA CONVERGÊNCIA DIVERGENTE: a centralidade da TV aberta no setor audiovisual brasileiro (Tese-UFBA). Autora: Suzy dos Santos/ Ano: 2004/ 270 p.

Santos (2004) aborda a questão da convergência na mídia brasileira a partir da TV aberta e problematiza a sua viabilidade dentro do contexto da radiodifusão, telecomunicações e vontades políticas existentes no país. Sua pesquisa busca apresentar as contradições entre “as previsões convergentes e a concretização de posições divergentes entre estes setores”. A fim de efetivar esta análise ela compila dados sobre leis, concessões e mapeia o cenário, as estruturas do mercado brasileiro de mídia e suas relações político-econômicas. Todo este olhar panorâmico é baseado no enfoque dos estudos de Economia Política da Comunicação, corrente à qual a pesquisadora enfatiza pertencer e trilhar desde o inicio de suas investigações acadêmicas.
A pesquisa foi exposta em quatro capítulos, sendo função dos dois primeiros apresentar o contexto da TV aberta no século XX. No segundo ela anuncia os papéis ocupados pela TV, suas mudanças e tensões no mercado capitalista. A segunda parte contempla uma síntese dos atores públicos e privados e suas correlações na configuração da TV brasileira. Santos apresenta um valioso mapa de vínculos entre o atores da mídia, destacando as relações entre os políticos, os proprietários de TV (em toda sua diversidade, atendendo desde os representante das TVs religiosas aos prefeitos donos de retransmissores de TV no interior do país) e a consequência deste apadrinhamento e lógica econômica para o elo mais fraco desta relação, o público.
A hipótese central do trabalho defende que os laços que envolvem econômica e politicamente a televisão aberta determinaram sua centralidade no sistema audiovisual. “Esta centralidade, consolidada ao longo do tempo foi pautada por duas funções hegemônicas: uma, de integração social e outra, de manutenção da esfera de poder político e econômico”. Esta composição do sistema de televisão representa, segundo a autora,a principal barreira às possibilidades de convergência, dificultando o acesso de novos atores ao acesso universal às novas tecnologias e à re-regulamentação do setor.  Santos assinala que apesar das crises econômicas e do novo cenário de opções de entretenimento advindos com a internet a TV ainda tende a ser hegemônica e determinará condições para a convergência de alguns segmentos da mídia.
A autora conclui que a convergência inevitável das comunicações a partir da TV, divergiu, pela supremacia da TV aberta: “a convergência entre comunicação de massa, telecomunicações e informática não pode ser observada apenas como uma tendência inexorável da tecnologia ou da economia global. As barreiras sociais, políticas e econômicas que estão profundamente arraigadas nos contextos locais não podem ser ultrapassadas sem uma ampla discussão dos elementos compositivos deste panorama que, no caso brasileiro, têm seu âmago definitivo na centralidade da televisão aberta no setor audiovisual brasileiro”.
            A densa discussão feita ao longo do texto sobre a tradição dos estudos de econômica política e a própria contextualização dos cenários e personagens que envolvem a TV aberta e seu mercado demandavam uma análise mais explanatória acerca de questões da convergência e ou de processos referentes à interface da TV com cinema, publicidade, internet e outros suportes multimídia.
O olhar destinado a formação e consolidação dos grupos midiáticos brasileiros, os jogos políticos e econômicos que permeiam esta relação são de grande valia para a pesquisa que desenvolverei ao longo da minha tese. O percurso da autora para consolidação de um banco de dados foi significativo como índice no mapeamento da mídia brasileira (e seus grupos dominantes) nas instituições oficiais como Anatel e Ministério das Comunicações.


sábado, 14 de maio de 2011

Análises de resenhas. Por: Lucineide Magalhães

Resenha 1

Os novos modelos do ativismo na internet: O caso dos Centros de Mídias Independente

Autora: Luciana Fleischman

Ano: 2006

A referida dissertação apresenta uma discussão acerca da apropriação social da internet como forma de enfrentamento à hegemonia do capitalismo no mundo, tomando como caso o Centro de Mídia Independente, ou Indymedia, no contexto argentino. Na primeira parte, a autora contextualiza a globalização, o capitalismo e suas práticas neoliberalistas que atuariam, sobremaneira no desenvolvimento das tecnologias e seu alastramento no território mundial causando mutações tecno-políticas e mesmo econômica nos ambientes da comunicação.

Na segunda parte, é realizada uma análise conjuntural de como estaria ocorrendo o surgimento de um movimento em rede, que se realizaria no ciberespaço, como ferramenta de ação política, paralelo as atividades tradicionais de comunicação dos movimentos sociais, como panfletagens e protestos. Como perspectiva de hipótese, a autora sugere que as lutas sociais sofreram um redirecionamento no mundo globalizado fundamentado na descentralização da produção e circulação em comunicação possibilitada pela mercantilização no mundo capitalizado.

No que se refere ao campo teórico é construída uma discussão com autores contemporâneos, que se comunicam a ponto de construir discurso favorável a argumentação da autora de que haveria uma materialidade nas dimensões ativistas viabilizadas pela rede, já na terceira parte, exemplificada pelo caso Indymedia na Argentina. Vale frisar que a autora consegue manter um distanciamento do objeto que assegura a construção de um texto bem argumentado e costurado. No entanto há que se considerar o texto como uma construção cautelosa, como a autora mesmo define, com pouca abordagem acerca das transformações no campo da subjetividade do sujeito contemporâneo relacionado aos meios de comunicação, que poderiam ter sido útil, ou não, para pensar a condição dos atores sociais e para justificar ainda mais o enfrentamento ao neoliberalismo.

Em última análise, auto definido reflexivo, a dissertação acena para duas questões fulcrais relacionadas ao agendamento: as abordagens diferenciadas na grande mídia que sofrem grupos minoritários e a oportunidade de construção de uma agenda própria possível na internet. Isto se verifica no Indymedia, caracterizado como rede de ativismo político e contra-hegemônico.

Resenha 2

Notícias de um crime no mundo civilizado: As mortes de Galdino Pataxó

Autora: Ana Paula Freire

Ano: 2004

Este texto propôs refletir a utilização da imagem do “índio” (Assim definido por ela) nos meios de comunicação impressos, a partir do assassinato do indígena Galdino Jesus dos Santos da etnia Pataxó Hãhãhãe, Sul da Bahia, ocorrido no ano de 1997 em Brasília. Formatado em três capítulos, a autora, através da Análise do Discurso, comparou textos relativos a esse tema em dois jornais (O Globo e Porantim) o que possibilitaria alcançar seu objetivo de investigar a construção do discurso jornalístico no que se refere ao indígena e o conseqüente imaginário acerca deste na sociedade brasileira.

Dividida em três capítulos, o trabalho se assenta sobremaneira na Análise do Discurso, pelo qual além de discute a exposição do caso supracitado na mídia, indaga a chamada “objetividade” no ou do jornalismo. Seu texto, em princípio, propunha uma análise acerca dos jornais como elemento primário, e o caso proposto à análise seria uma ilustração de como se desenrola a construção discursiva nos meios de comunicação. Em sua análise comparativa da cobertura do caso Galdino Pataxó no jornal O Globo e Porantim, a autora acaba por se valer de uma construção textual pessoal e excessivamente opinativa que perdura por toda a dissertação.

Apesar de insistir em que seu trabalho não opera a partir de julgamento dos jovens, sua postura textual conduz à uma discussão sócio-política ao perfilar freqüentemente os mesmos, dado que é construído uma análise mais sobre quem foi a vítima e quem foram os agressores, aqui este último seria interpretado como os jovens que cometeram o crime e o jornal que macularia a imagem do indígena e conseqüentemente de outros dos seus. Isso pode ser evidenciado no título que desde já sugere “as mortes de Galdino”.

Por conseguinte, e utilizando a análise do discurso, há uma abordagem acerca de quem seria a vítima e quem seria o agressor levando para segundo plano como seriam concebidas as visões do “índio” no Brasil nos dois jornais. Isso foi fundamental para regimentar a posição da autora, que hipervaloriza o jornal Porantim, mesmo quando cita o problema da produção do discurso no Porantim, que é feito por pessoas com posturas equalizadas no que se refere aos indígenas, tratando-o como mídia alternativa e enquanto produção que favoreceria o indígena. Por outro lado, trata o jornal O Globo como uma descontinuidade lingüística ao, na visão da autora, estereotipar o indígena, acabando por citar o caso em outros jornais de grande circulação no Brasil.

Em última análise, a dissertação traz uma dimensão muito significativa que é sua contribuição para as análises de produção jornalísticas no Brasil, considerando um ponto muito importante, e pouco abordado, que são os casos emblemáticos de violência cometidos por jovens de classe média contra minorias, como a autora sugere, e nos quais a grande mídia tende a atenuar, ou mesmo justificar as ações.


Resenha 3

Do território da aldeia ao terreno da imagem: Uma reflexão sobre imagem, discurso e identidades.

Autor: Everaldo Rocha Ramos de Oliveira

Ano: 2004

O trabalho ora apresentado propôs uma reflexão sobre linguagem, imagem, discurso e sociedade relacionados a identidades que privilegiam a oralidade. Por isso o autor analisou o discurso em filmes nacionais que tiveram como temática grupos indígenas no estado do Rio de Janeiro, tomando como estudo de caso específico o povo Guarani, por isso optou por uma pesquisa qualitativa baseada na Análise do Discurso.

No primeiro capítulo, Ramos (2004) apresenta sua fundamentação teórica que se ancora na Teoria da Análise do Discurso, de linha francesa, para fazer ligações entre o discurso operado no cinema e o caso Guarani. Se atendo não apenas a uma análise lingüística, mas proporcionando uma perspectiva sócio-histórica do tema. Por isso, o autor identifica noções sobre o sujeito na análise do discurso, sua contextualização e imbricações histórico-ideológicas. Suas articulações teóricas pensam ainda os chamados Aparelhos Ideológicos do Estado (Althusser) para as questões de transformação de produção de sentido dos sujeitos.

No capítulo seguinte o autor faz uma contextualização da cultura Guarani primeiro em caráter nacional e em seguida no Estado do Rio de Janeiro, especificamente o povo Guarani-Mbyá nas aldeias Paraty, Parati-Mirim e Bracuí, realizando uma exposição do modo de vida deste grupo e as transformações socioculturais ocorridas com estes povos. Em seguida, no terceiro capítulo, há o detalhamento da efetivação da pesquisa que se deu de forma etnográfica, descritiva e de análise.

Já no quarto capítulo, há a efetivação da pesquisa, baseada na análise de audiovisuais e a partir das exposições de fotos dos grupos indígenas, supracitados e a exposição dos filmes Mulher Índia (1985 –Eliane Bandeira) eSeguir Siendo(1999 – Ana Zanotti). A análise foi construída, como frisa o autor, com os indígenas para a percepção de elementos constitutivos dos discurso como silenciamento, visibilidade e narração de memórias indígenas.

Em suas conclusões, o autor acena, a partir da Análise do Discurso, para discursos fundadores e etnocêntricos observados nos filmes e negados pelos Guaranis. E para a valorização do ver-se nas fotografias. Por fim, o autor observa o interesse desse povo para produções que sejam mais independentes de não-índios e que privilegiem representações mais próximas de sua realidade.

Subjetividade na experiência fotográfica

O trabalho produzido pela Claudia Linhares Sanz, “Passageiros do tempo e a experiência fotográfica: da modernidade analógica à contemporaneidade digital”, em linhas gerais, tem por objetivo central traçar a relação entre a experiência de temporalidade e o ato fotográfico. A autora questiona o quanto a fotografia ainda tem ganhado relevância como forma de documentar nossas experiências atuais e a partir deste ponto tenta estabelecer uma relação entre essa produção excessiva de imagens fotográficas e a experiência temporal contemporânea.

O percurso de análise da autora pauta-se sobre uma perspectiva histórica. Ao invés de uma definição do que é fotografia, ela optou por destacar o que muda nos conceitos de fotografia durante o seu percurso histórico. Qual a relação que a fotografia exerce com a representação do real e com a temporalidade na Modernidade e na Contemporaneidade, ou melhor, que mudanças ocorrem na produção fotográfica destes dois tempos ou mesmo o quê permanece como ponto de semelhança?

Antes mesmo de mapear as épocas em questão no seu trabalho, a autora traz, como o título já sugere, uma nota sobre do tempo no qual deixa evidentes suas escolhas teóricas e abordagens sobre o objeto a ser estudado. Ela define o conceito de tempo, que será abordado no trabalho, sob a ótica foucaultiana de um tempo configurado sobre as práticas sociais, as relações de poder; um tempo a-histórico capaz de produzir novos objetos e formas de subjetivação. Entender este posicionamento, dá ao leitor o suporte para compreender os caminhos de observação traçados e as questões levantadas pela autora para compreender a fotografia dentro de cada contexto histórico abordado.

No desenvolvimento do seu trabalho, a autora compõe uma complexa argumentação levando em consideração diversos fatores a fim de entender a fotografia como produto de uma experiência de subjetivação, além de consequência de uma inserção temporal, iniciada na modernidade e amplificada no contemporâneo. Entretanto, esta resenha não daria conta de atravessar e questionar a grandeza deste trabalho e optei por recortar a análise da autora acerca de um ponto específico do contexto da Modernidade que suscitou a invenção de um modo de representação fotográfico.

Um dos posicionamentos da autora é apresentar a construção da subjetivação na modernidade, ou a corporificação dos sujeitos, como fundamentos contextuais do momento histórico de surgimento da fotografia. Diante de uma “genealogia da visão” (Jonathan Crary), a autora coloca que a modernidade inaugura um observador interpretativo, ou seja um observador que questiona a própria percepção como fonte de conhecimento puro e transparente sobre o mundo. Esse foco nos modos subjetivos de percepção não garante mais a apreensão de um real neutro e objetivo e, com isso, se instaura uma crise de representabilidade, na definição de Foucault.

O interessante da abordagem da autora é que leva em consideração os paradoxos da época para sustentar sua análise. Assim, tal crise de representabilidade, fruto da construção de um observador subjetivo e parcial, e da descrença da visualidade como modo de verdade, faz emergir, em paralelo, um projeto científico positivista que transfere à máquina o papel de conhecimento e apreensão do real. Mesmo contraditórias em princípio, tais movimentos nada mais que expõem relações de poder que, em face dessa crise, buscam meios de disciplinar e controlar uma visão subjetiva do mundo. E neste contexto o advento da fotografia se apresenta como o instrumento óptico mais adequado e eficaz para este processo.

Seguindo este raciocínio, a autora desmonta uma questão crucial nas teorias fotográficas que considera que a fotografia liberta a pintura do papel de representar a realidade para experimentar outras formas de linguagem. Na verdade, o que se coloca é que a fotografia não é a causa dessa libertação na pintura moderna, e sim ambos são produtos dessa construção da subjetividade, frutos do mesmo sistema de forças, mas que responderam de formas distintas. A pintura, contrariamente ao que ocorre com a fotografia, apropria-se dessa corporificação do sujeito para realizar experiências no campo perspectivo e das sensações visuais, assim surgem vanguardas que pretendem expressar o modo como aspectos do mundo são percebidos, destacando elementos constituintes da visualidade (a exemplo dos impressionistas que ousaram trabalhar com a percepção das cores).

Uma contribuição (dentre as várias que não puderam ser abordadas) que este trabalho acrescenta ao campo fotográfico é que traz uma nova perspectiva de análise para a invenção da fotografia e, tal fato, pode ser decisivo para conduzir as abordagens mais atuais no campo fotográfico. Ou seja, a consolidação da imagem fotográfica, não está em considerá-la, sobre o ponto de vista da técnica, mais fiel a realidade que a pintura, e sim pelo fato de que, através dos regimes de percepção, o observador torna-se subjetivo e sua visão incapaz de adquirir o verdadeiro real. Concluindo, a abordagem da invenção da fotografia desloca-se da questão de uma comparação puramente de ordem técnica para as práticas sociais e subjetividades que configuram e permitem mudanças nos modos de representação e consolidações de determinadas técnicas em detrimento de outras.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Resenhas Melina

Em busca da independência fonográfica

A dissertação “A Nova Produção Independente – Indústria fonográfica brasileira e novas tecnologias da informação e da comunicação”, defendida por Leonardo de Marchi no PPGCOM/UFF; analisa a configuração de uma produção fonográfica independente a partir da década de 90. Segundo o autor, estas transformações na indústria fonográfica brasileira seriam pertencentes a uma Nova Produção Independente (NPI). De Marchi analisa este contexto através do estudo de caso de duas gravadoras indies: a carioca Biscoito Fino (MPB) e a paulista Trama (Pop-rock).

De Marchi (2006) utiliza-se da hipótese central de que a consolidação da produção independente é resultado da reestruturação do comércio fonográfico no país. Contexto promovido tanto pela reforma estrutural das majors (contenção de gastos; demissões e terceirização da produção devido à apropriação das tecnologias digitais) quanto pelo surgimento de novas práticas comerciais no ciberespaço e em mídias alternativas (rádios comunitárias, revistas especializadas em música etc). No capítulo 2, “A Velha Produção Independente”, o autor argumenta as diferenças em torno do uso do termo independente na década de 70, o qual tinha cunho político, e como a NPI saiu do caráter “marginal” transformando-se num nicho do mercado fonográfico. É neste ponto que De Marchi apresenta uma ótima contribuição para discussões sobre os impactos das tecnologias digitais na economia do entretenimento.

Porém, uma das principais críticas ao trabalho está relacionada ao fato que De Marchi entrevistou alguns artistas da VPI e não ouviu a opinião de nenhum músico que tenha sido contratado pela Biscoito Fino ou pela Trama. No capítulo 3, “A Nova Produção Independente”, o autor entrevistou apenas componentes administrativos de ambas. A visão de artistas das duas indies poderia contribuir ainda mais para o trabalho. Contudo, quem deseja se aprofundar nas transformações ocorridas na indústria fonográfica nacional é uma boa leitura.

De Marchi, Leonardo Gabriel. A Nova Produção Independente: indústria fonográfica brasileira e novas tecnologias da informação e da comunicação. Niterói: UFF, 2006. 151p.

Trocas de arquivos e contrato social

O software Napster e o protocolo Gnutella podem ter características em comum? De acordo com a dissertação “Troca de arquivos par a par: Napster, Gnutella e o desenvolvimento de tecnologias de Comunicação na internet” defendida por João Martins no PPGCOM/UFF, sim. Utilizando os dois objetos, o autor aborda a atuação e as relações de agentes envolvidos no desenvolvimento de tecnologias de comunicação voltadas para troca de arquivos. É exatamente esta rota que Martins toma para responder a questão “na relação com quais significados se constrói o ambiente de desenvolvimento de trocas de arquivos?”.

Para observar as concepções e valores que orientam esta prática colaborativa, Martins faz um estudo preliminar sobre a questão judicial em torno do Napster, no capítulo 3 “O crepúsculo dos deuses: As representações sociais do caso Napster”. No decorrer dele, o autor utiliza-se de pesquisas sobre o processo movido pelas majors contra o software junto à Corte Americana do Distrito do Norte da Califórnia. A ação judicial determinou o fim de suas atividades visto que, de acordo com o julgamento, Shawn Fanning (criador do Napster) foi acusado de infração decopyright. Na visão do autor, esta tensão lida com disputas simbólicas que operam com discursos acumulados de interesses de ambas as partes.

Já no capítulo 4, ”Produzindo P2P: As dinâmicas socioeconômicas de desenvolvimento Gnutella”, Martins comenta sobre diversidade dos espaços e dos envolvidos (usuários leigos; programadores interessados no aprimoramento de tecnologias etc) no protocolo de compartilhamento de arquivos. O foco do autor é descrever como eles lidam com as noções de associação comunitária e liberdade de propriedade. Para isso, observa as ações do grupo de discussão do Yahoo! conhecido como Gnutella Developer Forum. Neste trecho, Martins faz uma análise entre o paradigma da dádiva e as ações colaborativas entre estes usuários. Porém, o autor não se aprofunda muito neste momento e apresenta a dádiva como elemento concebido: uma espécie de presente (oferecido livremente sem intenções). Por isso, a discussão obteve um caráter bem inocente.

Existem dois interesses centrais na discussão: um relacionado aos mecanismos de construção de identidades; outro que diz respeito à delimitação de estruturas sociais, envolvendo distinções e delimitações de posições em grupos virtuais. Martins contribui ao iniciar uma discussão de como este processo de afirmação de identidades se baseia em uma estrutura de significado. E como esta dinâmica poderia ser um tipo de contrato social do ciberespaço. Quem se interessa pela troca de bens culturais no ciberespaço, a dissertação dá boas diretrizes para debates sobre o assunto.

MARTINS, João Damasceno. Trocas de arquivos par-a-par: Napster; Gnutella e Desenvolvimento de Tecnologias da Comunicação na Internet. Niterói: UFF, 2003.


Do underground para o mainstream

“O que faz um DJ ser mais autêntico e melhor do que os outros?”. Esta é a questão que instigou Marcelo Garson Braule Pinto a realizar a dissertação “Quem é o melhor DJ do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica”. Na pesquisa, Pinto (2009) utiliza a eleição de melhor DJ do Ano promovida pela revista inglesa DJ para observar as transformações na produção e distribuição de música eletrônica, a qual saiu da cena underground para a cultura massificada. Para isso, analisa o caso do DJ Tiesto, que manteve o título de “melhor DJ do Ano” por três vezes consecutivas.

Pinto (2009) observa que esta mutação criou uma disputa de poderes entre os Djs considerados autênticos (mais antigos) e os Djs rotulados como “vendidos” (os cultuados pela revista), visto que ambos expõem visões do que a música eletrônica deveria ser, quais integrantes têm o direito dela participar e qual é a forma certa de avaliá-la. Para o autor, o que se evidencia nesta disputa simbólica - através das opiniões emitidas no fórum de música eletrônica Rraurl (um dos mais antigos do Brasil) - é a busca de certos membros de defenderem seu espaço e a luta de tantos outros para participarem.

Baseando suas pesquisas nas obras de Pierre Bourdieu, Pinto analisa esta disputa por autoridade e exibição do capital cultural. Tanto que os Djs considerados autênticos apresentam a comercialização da música eletrônica como “a antítese do espírito underground”. O que mais chama a atenção foi que o autor, no capítulo “Quem é o melhor Dj do mundo?”, trata o fórum como uma voz autêntica – tendo autoridade para discutir sobre música eletrônica - e a mídia massiva como corruptora dos verdadeiros valores da cena. Durante toda a dissertação, esta visão foi legitimada pelo fato de só ter analisado este fórum, o qual defende a música eletrônica como cena underground. Fóruns com visões divergentes não foram analisados.

Enfim, a pesquisa foi defendida em 2009, porém é muito atual pelo fato de abordar batalhas de grupos em torno da apropriação dos bens culturais. Outra abordagem interessante é que a dissertação foca na transformação do artista underground em superstar, e quais impactos esta mudança pode trazer às identidades inseridas na cena eletrônica. Comparando o trabalho de Pinto com algumas questões relacionadas à indústria fonográfica atual, pode-se chegar a várias ideias. Por exemplo, o artista superstar cai no universo alternativo quando se lança em carreira independente de majors. A proposta também vai de encontro com disputas simbólicas relacionadas à perda de controle das majors na cadeia produtiva musical: distribuir as canções na internet ou não? Por que as editoras de Direitos Autorais não veem a licença Creative Commons com bons olhos? Por que músicos independentes se arrepiam quando escutam falar de Ecad e Ordem dos Músicos do Brasil (OMB)? Desta forma, o trabalho de Pinto ajuda na discussão de projetos que envolvam disputas simbólicas; identidades; cibercultura e indústria cultural.

PINTO, Marcelo Garson Braule. Quem é o melhor Dj do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica. Niterói: UFF, 2009. 123 p.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Uma Aproximação Sensorial do Sentido.

Resenha de: A Imagem do Cinema Japonês. Política e Ética o Olhar e do Corpo (André Keiji, Dissertação de mestrado pelo PPGCOM, UFF, Niterói, defendida em 2009) e A Percepção Sonora no Cinema: ver com os ouvidos, ouvir com outros sentidos. (Andreson Carvalho, Dissertação de mestrado pelo PPGCOM, UFF, Niterói, defendida em 2009).

Por Jônathas Araujo


Ambos trabalhos pretendem investigar a formação de sentido em formas expressivas que se organizam plasticamente, porém cada um tendo problemas diferentes em jogo. Em A Imagem do Cinema Japonês busca-se entender como a produção de sentido na imagem é veiculo de uma disputa política, de conduta e representação do corpo. Em A Percepção Sonora no Cinema o som deve ser tomado como elemento significativo e que participa da apreciação fílmica. Por ora poderíamos colocar que a primeira dissertação aborda questões da representação do corpo através da imagem enquanto o segundo é um estudo de recepção de uma obra tendo em vista o som.

É preciso deixar claro que o sentido investigado aqui não é em relação a alusões simbólicas e alegóricas que já possuem um sistema razoavelmente cristalizado e que permite toma-los como conceitos e enunciados verbais. Estamos aqui no âmbito de um sentido nascente, um apelo as estruturais sensoriais do corpo do espectador.

A Imagem do Cinema Japonês: Quando se fala ao corpo através do corpo que fala.

O trabalho de Keiji pretende investigar a relação de disputa que se dá entre estruturas hegemônicas e sujeitos. O foco, neste trabalho, voltasse para como esse embate toma o corpo como lugar discursivo, ou seja, um saber-poder construído sobre o corpo que se manifesta em sua conduta domesticada. Porém, não é sobre discursos que se realizam verbalmente que o trabalho pretende se debruçar, mas sobre aquilo que dificilmente consegue deixar-se ser apreendido de forma enunciativa, os estados de afetos. Por isso Keiji toma a imagem, ou em suas palavras, o corpo da imagem assim como a imagem do corpo (esta ultima possivelmente seu interesse principal) para analisar a representação do corpo japonês no cinema mundial e compreender esse embate discursivo.

Bem, por tratar-se de uma embate poéticas de resistência em relação a representações hegemônicas e domesticadoras do corpo e de um comportamento são eleitas para a investigação. Em particular no filme Ichi, o Assanino de Takashi Miike.

A dissertação elabora muito bem um conjunto de teorias e articulações que colocam em questão aspectos discursivos (aqui, já convocando as consequências do termo como Foucalt elabora) de formas expressivas da produção mediática e cultural tomando como lugar de sedimento o corpo e a conduta do sujeito. Bem, na dissertação o corpo também é tomado como local da produção de sentido, porém é enfatizado as consequências éticas e políticas. Se tomamos o processo da percepção como modo de produção de sentido, e se perceber é agir (conforme Bergson) essa ação deve ser contextualizado em um corpo social tendo consequências éticas e disputas no jogo no processo da produção do sentido. É esse o lastro teórica do qual parte a dissertação para debruçar-se sobre as imagens do cinema japonês.

A análise empreendida sobre trechos e fragmentos do filme é a parte mais frutuosa do trabalho, sempre apontando as possibilidades de representação do corpo (a imagem do corpo), e portanto, possibilidades da produção de sentido (sentido esses a partir de afetos ou afecções através do corpo da imagem) ainda não domesticadas, sendo assim possibilidades de sentido, ou possibilidades do corpo. Bem, no entanto o trabalho não desenvolve um método satisfatório nem uma argumentação plena capaz de propor modalidades de como a imagem do corpo – carregado de apelo ao sistema sensório e em principio formando um estímulo estésico – entra em processo dentro de um sistema de produção de sentido, e principalmente de que ordem é esse sentido. Como veremos adiante, o trabalho de Andreson insinua algumas categorias de afecção do corpo como modos de escuta. Creio que é necessário um movimento semelhante quando nos debruçamos sobre a produção de sentido em linguagens (sendo usado em um sentido metafórico) que não podem ser desinvestidas de seu aspecto material. Por vezes, na dissertação, e por não ter investido nessa primazia da percepção no sentido, a análise de Keiji varia ente reconhecer um jogo simbólico e alegórico das imagens do corpo (assim sendo possível relacionar à disputa discursiva) e de fato avaliar estados de afecção sobre a imagem (a partir de sua prórpia experiência). Porém não empreende a devida investigação analítica sobre esses estados afetivos possíveis na presença do corpo enquanto imagem para além do que ele representa, embora a dissertação anuncie diversas vezes que não é sobre um representação simbólica ou alegórica que pretende investir.

A percepção como processo de significação

Já no trabalho de Andreson Carvalho pretende-se avaliar a sonoridade construída no cinema o sua potência de sentido. Trata-se, de fato, de um trabalho que investiga a recepção sonora, o efeito desse texto sobre a apreciação fílmica. Para tratar desse aspecto o autor tenta elaborar uma aproximação fenomenológica sobre a formação do sentido, principalmente a partir de trabalho de Bergson em Matéria e Memória.

Tais abordagens lidam com o sentido radicado no corpo; o corpo solicitado a responder uma demanda do relacionamento do sujeito com o mundo. O sentido é abordado em uma condição existencial. Bergson (e outros autores dessa tradição) traduz esse processo em termos da percepção. Perceber é uma ação (real ou possível) em referencia à matéria, isto é, responder diante de uma situação. Também devemos considerar essa relação sempre se dá de forma perspectivada: o sujeito não reage a toda e qualquer situação, ou no caso desse estudo, a todo e qualquer estimulo sonoro. Perceber também é selecionar para reagir àquilo que lhe diz respeito. Na verdade devemos considerar a reação como a outra face desse por em perspectiva e não um momento segundo. Merlaeu-Ponty avança sobre a percepção aproximando-a da ideia de expressão, se toda percepção é agir isso é uma movimento expressivo. Esse essa perspectivação do mundo que justifica tratar como conceitos diferente ouvir e escutar ou olhar e ver.

É essa condição que define a percepção que justifica Andresson Carvalho a tratar o sentido, a partir do som na apreciação fílmica, como algo único, subjetivo e praticamente incomunicável. Para isso o trabalho também convoca o segundo aspecto, este estrutural, da percepção, que Bergson trata como memória. Diante de uma situação nosso corpo reage, primeiro por ser uma condição existencial, mas também o faz a partir de horizontes de experiências dadas, ou melhor, vividas. O corpo não é inocente, e dando continuidade a esse pensamento, o sentido não se forma absolutamente fora de um horizonte. Esse é o ponto que devemos ter em mente também sobre a percepção. A percepção é estruturada a partir de experiências anteriores, porém isso não é sinônimo de única e individual como afirma Andreson.

Ora, é claro que a relação entre sujeito e mundo é inesgotável, haja vista o próprio movimento de por em perspectiva que é a percepção. Mas na mesma medida em que a perspectiva é móvel e exploradora, (mesmo confrontando um aspecto ainda não experimentado) isso é mediado a partir de perspectivas já experimentadas. Nada é no mundo é absolutamente incompreensível como também nada no mundo pode ter o seu sentido esgotado. Há sempre uma nova percepção, um outro modo de perspectivar a relação do sujeito com o mundo. A percepção contem em si uma dupla natureza, estruturante-estruturada.

Porém, esse aspecto estruturante, que Bersgon avalia na condição de memória, é o que leva a dissertação a considerar a percepção como uma experiência subjetiva e própria. Em diversos momentos o texto aponta que cada espectador tem um percepção diferente (já que se tem por lastro somente às suas memórias e experiências). Em verdade, esse é até um dos objetivos do trabalho, provar como a construção sonora do filme se abre a infinitas interpretações a partir de cada um. Há nesse argumento uma contaminação das crenças do profissional do som no cinema, sendo o autor dissertação um deles. Na pretensão de defender um sentido próprio a banda sonora no cinema, ele exagera no argumento da total potencia de produção de sentido do som. Esse é o ponto mais questionável do trabalho e que o leva a realizar uma pesquisa empírica sobre a recepção sonora de um dado filme. Vejamos em tópicos os pontos problemáticos de tal posição e também na pesquisa empírica.

  • - Para crer na percepção absolutamente própria e subjetiva é preciso desconsiderar a dimensão comunicativa da experiência, que se realiza na própria expressão. Ora, exprimir algo é tentar representar um relação com o mundo, uma percepção. Como já dito, a expressão é uma outra face da percepção. Logo, a memória (dimensão estruturante da percepção) não é única e individual, ainda que seja um dado subjetivo, mas é também compartilhada. Se assim não fosse como explicaríamos os fenômenos expressivos e uma tendência comunicativa da natureza humana.
  • - Ora, por ser o filme uma forma expressiva (assim como o som no filme), já é também uma tentativa, primeira, de dar conta de uma relação possível entre sujeito e mundo. A relação com a obra já é uma relação com uma certa perspectiva. Claro que está também é inesgotável, mas tampouco pode ser qualquer coisa. Um primeiro posicionamento apenas limita tudo aquilo que não é possível, mas ao mesmo tempo é um todo de possibilidades.
  • - Nesse ponto o espectador não é soberano, como insinua a dissertação. É uma relação negociada com as estruturas da obra. Assim como a obra é negociada com os horizonte de expectativas do espectador. O texto é essa estrutura que autor e leitor se encontram, não empiricamente, mas como dimensões estruturais.
  • - Como poderia a pesquisa empírica, na forma de questionário após o filme, dar conta do que é perseguido (a percepção sonora) já que perceber não é uma atitude cognitiva, mas uma agir diante de uma situação. Como também não é natural separar e guardar na lembrança a reação a partir das variedades de fenômenos sensorias do cinema. Na conclusão da dissertação há uma expõe o fato de que as respostas para a pergunta sobre o som mais importante no filme resultou em diversas respostas diferentes. Ora, aqui a resposta não ilustra a percepção sonoro sobre o filme, mas simplesmente um momento em que o espectador apercebeu-se tendo uma reação diante de uma situação, em uma linguagem comum, percebeu a sua percepção.
  • - A própria validade da pesquisa empírica é questionável devido às suas condições de amostragem, execução, variedade de aparições do fenômeno desejado de estudo. Como poderia ter certeza que o entrevista de fato viu o filme na condições que ele considerou importante para ser um exemplo? Responder sobre o enredo do filme e citar uma cena importante não é significativo para tanto.
  • - Partindo da própria noção que um texto é uma estrutura que negocia com um horizonte de saberes e experiências do espectador, podemos considerar que todo texto é endereçado (ao contrário do que a dissertação afirma). Isso não quer dizer que todo texto seja restrito e hermético, alguns até os são. Pelo contrário, os textos de uma cultura pós-moderna são capazes de coordenar vários endereçamentos (ou leitores modelos/implícitos). Então é possível supor que em alguns filmes e em alguns de seus aspectos é preciso um certo dado de experiência (a dimensão estruturada da percepção) para que não se tenha uma má leitura, uma má interpretação; no caso de uma percepção, uma descompostura do corpo diante de uma situação. É possível que algumas situações ótico-sonoras no filme convoquem uma experiência anterior de seu espectador. Não estamos afirmado que só é possível uma interpretação ou uma percepção; estamos colocando que as interpretações e percepção possíveis só são possíveis a partir de um lastro.

Porém no trabalho, o autor elabora algumas categorias da escuta que parecem avançar muito mais sobre o sentido do que os trabalhos que ele toma como referência. Na parte 2.4 ele discorre sobre seis dimensões da escuta, sendo as três primeiras categorias dados por Chion. As categorias de Chion na verdade tentam dar conta das faces que um signo sonoro pode assumir. A escuta Causal: o som enquanto índice; escuta Semântica: o som enquanto símbolo (que normalmente é dependente da sua potencia idexical); a escuta Reduzida: o som enquanto suas próprias qualidades (qualisigno). Possivelmente essas são as principais relações do som em relação ao seu objeto e a ele mesmo.

Mais profícuo para perseguir o sentido sonoro são as categorias que o Andreson Carvalho tenta estabelecer partido do pressuposto da percepção, sendo está radicada no corpo e uma ação. É sobre o corpo que as categorias tentam ser elaboradas. Especialmente na escuta Equiparada (dada a partir da inexistência de um foco sonoro) o autor elabora três possíveis respostas corporais: Diminuída ou Desatenta, que na verdade insinua mais uma apatia corporal do que uma ação positiva; Normal, o corpo em segurança e equilíbrio; Ampliada ou Atenta, que gera um estado de estresse e fadiga pois e preciso estar sempre a iminência de uma reação.

Uma breve conclusão

Bem, se o pretendido é debruçar-se sobre o sentido a partir de uma matéria que dificilmente se deixa domesticar por um sistema semântico e ou mesmo simbólico (como é o caso da música e aspectos não figurativos das artes plásticas e gráficas) é preciso se debruçar sobre modalidades do corpo frente a tais objetos. Para tanto é preciso tomar a percepção como um fenômeno de sentido e mesmo em sua potencia comunicativa. Esse é o aspecto em que Keiji desliza e que o deixa sem lastro para sua análise. Porém, Andreson Carvalho, mesmo tendo partido da percepção, não aborda o filme como um texto estruturado e dota o espectador empírico do pleno poder da produção de sentido.