sábado, 14 de maio de 2011

Análises de resenhas. Por: Lucineide Magalhães

Resenha 1

Os novos modelos do ativismo na internet: O caso dos Centros de Mídias Independente

Autora: Luciana Fleischman

Ano: 2006

A referida dissertação apresenta uma discussão acerca da apropriação social da internet como forma de enfrentamento à hegemonia do capitalismo no mundo, tomando como caso o Centro de Mídia Independente, ou Indymedia, no contexto argentino. Na primeira parte, a autora contextualiza a globalização, o capitalismo e suas práticas neoliberalistas que atuariam, sobremaneira no desenvolvimento das tecnologias e seu alastramento no território mundial causando mutações tecno-políticas e mesmo econômica nos ambientes da comunicação.

Na segunda parte, é realizada uma análise conjuntural de como estaria ocorrendo o surgimento de um movimento em rede, que se realizaria no ciberespaço, como ferramenta de ação política, paralelo as atividades tradicionais de comunicação dos movimentos sociais, como panfletagens e protestos. Como perspectiva de hipótese, a autora sugere que as lutas sociais sofreram um redirecionamento no mundo globalizado fundamentado na descentralização da produção e circulação em comunicação possibilitada pela mercantilização no mundo capitalizado.

No que se refere ao campo teórico é construída uma discussão com autores contemporâneos, que se comunicam a ponto de construir discurso favorável a argumentação da autora de que haveria uma materialidade nas dimensões ativistas viabilizadas pela rede, já na terceira parte, exemplificada pelo caso Indymedia na Argentina. Vale frisar que a autora consegue manter um distanciamento do objeto que assegura a construção de um texto bem argumentado e costurado. No entanto há que se considerar o texto como uma construção cautelosa, como a autora mesmo define, com pouca abordagem acerca das transformações no campo da subjetividade do sujeito contemporâneo relacionado aos meios de comunicação, que poderiam ter sido útil, ou não, para pensar a condição dos atores sociais e para justificar ainda mais o enfrentamento ao neoliberalismo.

Em última análise, auto definido reflexivo, a dissertação acena para duas questões fulcrais relacionadas ao agendamento: as abordagens diferenciadas na grande mídia que sofrem grupos minoritários e a oportunidade de construção de uma agenda própria possível na internet. Isto se verifica no Indymedia, caracterizado como rede de ativismo político e contra-hegemônico.

Resenha 2

Notícias de um crime no mundo civilizado: As mortes de Galdino Pataxó

Autora: Ana Paula Freire

Ano: 2004

Este texto propôs refletir a utilização da imagem do “índio” (Assim definido por ela) nos meios de comunicação impressos, a partir do assassinato do indígena Galdino Jesus dos Santos da etnia Pataxó Hãhãhãe, Sul da Bahia, ocorrido no ano de 1997 em Brasília. Formatado em três capítulos, a autora, através da Análise do Discurso, comparou textos relativos a esse tema em dois jornais (O Globo e Porantim) o que possibilitaria alcançar seu objetivo de investigar a construção do discurso jornalístico no que se refere ao indígena e o conseqüente imaginário acerca deste na sociedade brasileira.

Dividida em três capítulos, o trabalho se assenta sobremaneira na Análise do Discurso, pelo qual além de discute a exposição do caso supracitado na mídia, indaga a chamada “objetividade” no ou do jornalismo. Seu texto, em princípio, propunha uma análise acerca dos jornais como elemento primário, e o caso proposto à análise seria uma ilustração de como se desenrola a construção discursiva nos meios de comunicação. Em sua análise comparativa da cobertura do caso Galdino Pataxó no jornal O Globo e Porantim, a autora acaba por se valer de uma construção textual pessoal e excessivamente opinativa que perdura por toda a dissertação.

Apesar de insistir em que seu trabalho não opera a partir de julgamento dos jovens, sua postura textual conduz à uma discussão sócio-política ao perfilar freqüentemente os mesmos, dado que é construído uma análise mais sobre quem foi a vítima e quem foram os agressores, aqui este último seria interpretado como os jovens que cometeram o crime e o jornal que macularia a imagem do indígena e conseqüentemente de outros dos seus. Isso pode ser evidenciado no título que desde já sugere “as mortes de Galdino”.

Por conseguinte, e utilizando a análise do discurso, há uma abordagem acerca de quem seria a vítima e quem seria o agressor levando para segundo plano como seriam concebidas as visões do “índio” no Brasil nos dois jornais. Isso foi fundamental para regimentar a posição da autora, que hipervaloriza o jornal Porantim, mesmo quando cita o problema da produção do discurso no Porantim, que é feito por pessoas com posturas equalizadas no que se refere aos indígenas, tratando-o como mídia alternativa e enquanto produção que favoreceria o indígena. Por outro lado, trata o jornal O Globo como uma descontinuidade lingüística ao, na visão da autora, estereotipar o indígena, acabando por citar o caso em outros jornais de grande circulação no Brasil.

Em última análise, a dissertação traz uma dimensão muito significativa que é sua contribuição para as análises de produção jornalísticas no Brasil, considerando um ponto muito importante, e pouco abordado, que são os casos emblemáticos de violência cometidos por jovens de classe média contra minorias, como a autora sugere, e nos quais a grande mídia tende a atenuar, ou mesmo justificar as ações.


Resenha 3

Do território da aldeia ao terreno da imagem: Uma reflexão sobre imagem, discurso e identidades.

Autor: Everaldo Rocha Ramos de Oliveira

Ano: 2004

O trabalho ora apresentado propôs uma reflexão sobre linguagem, imagem, discurso e sociedade relacionados a identidades que privilegiam a oralidade. Por isso o autor analisou o discurso em filmes nacionais que tiveram como temática grupos indígenas no estado do Rio de Janeiro, tomando como estudo de caso específico o povo Guarani, por isso optou por uma pesquisa qualitativa baseada na Análise do Discurso.

No primeiro capítulo, Ramos (2004) apresenta sua fundamentação teórica que se ancora na Teoria da Análise do Discurso, de linha francesa, para fazer ligações entre o discurso operado no cinema e o caso Guarani. Se atendo não apenas a uma análise lingüística, mas proporcionando uma perspectiva sócio-histórica do tema. Por isso, o autor identifica noções sobre o sujeito na análise do discurso, sua contextualização e imbricações histórico-ideológicas. Suas articulações teóricas pensam ainda os chamados Aparelhos Ideológicos do Estado (Althusser) para as questões de transformação de produção de sentido dos sujeitos.

No capítulo seguinte o autor faz uma contextualização da cultura Guarani primeiro em caráter nacional e em seguida no Estado do Rio de Janeiro, especificamente o povo Guarani-Mbyá nas aldeias Paraty, Parati-Mirim e Bracuí, realizando uma exposição do modo de vida deste grupo e as transformações socioculturais ocorridas com estes povos. Em seguida, no terceiro capítulo, há o detalhamento da efetivação da pesquisa que se deu de forma etnográfica, descritiva e de análise.

Já no quarto capítulo, há a efetivação da pesquisa, baseada na análise de audiovisuais e a partir das exposições de fotos dos grupos indígenas, supracitados e a exposição dos filmes Mulher Índia (1985 –Eliane Bandeira) eSeguir Siendo(1999 – Ana Zanotti). A análise foi construída, como frisa o autor, com os indígenas para a percepção de elementos constitutivos dos discurso como silenciamento, visibilidade e narração de memórias indígenas.

Em suas conclusões, o autor acena, a partir da Análise do Discurso, para discursos fundadores e etnocêntricos observados nos filmes e negados pelos Guaranis. E para a valorização do ver-se nas fotografias. Por fim, o autor observa o interesse desse povo para produções que sejam mais independentes de não-índios e que privilegiem representações mais próximas de sua realidade.

3 comentários:

  1. Você fez a análise dos trabalhos, mas não buscou traçar uma ponte entre as discussões dos autores e a dissertação que se propõe realizar, deixando uma caráter mais descritivo que crítico ou mesmo sintético às resenhas. Também senti falta de uma síntese entre os textos, em vez de análises separadas. As questões e hipóteses poderiam ter sido expostas de maneira mais clara, até para facilitar a compreensão por parte dos leitores que não tiveram contato com os trabalhos que você escolheu para analisar.

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  2. Gostei muito das 3 dissertações escolhidas e, quem conhece o projeto de pesquisa da Lucineide, percebe que ela fez um trabalho ótimo no que tange ao levantamento de dissertações e teses, pois conseguiu utilizar 3 trabalhos que têm tudo a ver com seu projeto sobre midiativismo e o índiosonline. E neste mesmo ponto, cabe uma ressalva: ela poderia ter inserido a sua pesquisa na resenha e problematizados mais as questões, pois, como eu disse no início quem conhece (e somente quem conhece) o projeto da Lucineide percebe isso.

    No mais, as três resenhas estão muito bem escritas. Expõem o objeto, o campo teórico, as questões e hipóteses de maneira bem clara em um texto coeso. A primeira resenha me pareceu um tanto quanto "panfletária" (não pensem pejorativamente, não achei expressão melhor!) - mas não sei se isso é um problema da resenha ou da dissertação. Me pareceu ser da dissertação, e por isso creio que caberia uma crítica ao trabalho, como a autora faz na segunda resenha. Nesta, gostei da crítica ao caráter opinativo da dissertação. Parece uma coisa óbvia, mas não é. E como todos tratamos de temas nos quais estamos envolvidos, corremos o risco de "escolher lados".

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  3. Lucineide encontrou nos textos analisados uma possibilidade de diálogo direta com o tema pesquisado. A proximidade expôs seu posicionamento, peculiar em cada uma das três pesquisas, e a possibilidade de reflexão sobre os diversos modos como o qual o tema índio/indígena/comunidades indígenas foram abordados.
    No primeiro texto ela realizou uma síntese. Apontou a pesquisa como positiva por investigar novas formas de mobilização de movimentos sociais, por meio da internet, aos poderes hegemônicos. Sinalizou a ideia central do trabalho ao fim do texto, apontado-a de forma sintética em dois eixos vinculados ao agendamento: as abordagens diferenciadas na grande mídia que sofrem grupos minoritários e a oportunidade de construção de uma agenda própria possível na internet. Ao observar o título do trabalho e a proposta de novos modelos de ativismo na internet, tive interesse de saber o que havia de novidade no processo encabeçado pelo Indymidia e como a pesquisadora sustentou sua hipótese de demarcação de novos espaços nos veículos de comunicação descentralizados e mercantilizados pelo capitalismo. Acredito que poderia ter sido feito um paralelo maior entre os dois trabalhos, visto que coincidem quanto a temática do midiativismo.
    No segundo, a demarcação dos termos índio (pela autora) e indígena (pela crítica), no primeiro parágrafo da resenha, expôs uma sequência de discordâncias da resenhista em relação ao texto de Freire (2004). Lucineide ressaltou a contribuição do trabalho sobre a investigação de abordagens midiáticas da violência de jovens de classe média para com as minorias, no fim do texto. Antes, dedicou-se às fragilidades da pesquisa, tanto no âmbito metodológico como na postura crítica da autora, ou na sua falta. O maior incômodo de Lucineide com a autora foi “uma construção textual pessoal e excessivamente opinativa, no texto”, porém tal postura foi repetida no lugar de crítica ocupado ao longo da resenha, que deixou de expor questões como a hipótese da pesquisa, sua efetivação e os paralelos entre os dois estudos. Para Lucineide, o desvio de Freire ao reduzir a temática central da análise comparativa entre o “mainstream” O Globo e o “alternativo” Porantim em um olhar pessoal, proporcionou uma perda sobre a reflexão do imaginário que a mídia brasileira (e a sociedade) tem sobre o indígena.
    Na última resenha Lucineide encontrou uma abordagem sobre o indígena no cinema, entretanto não explorou esta diferença de suporte para aproximar do tema que é compartilhado na sua pesquisa. Manteve-se em um lugar de síntese, sem amadurecer os pontos centrais do trabalho e ou a sua contribuição para o eixo de pensamento sobre a temática de representação das minorias. Acredito que a metodologia deveria ter sido mais explorada, visto que envolve a questão da identidade, compartilhada por Lucineide. Um dos ganhos do trabalho, segundo a crítica, foi proporcionar uma perspectiva sócio-histórica do tema e analisar, a partir da Análise do Discurso, discursos fundadores e etnocêntricos observados nos filmes e negados pelos Guaranis.

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