segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cinema e mercado (com uma pitada de música)

            Através de uma analise que compreender a formação da indústria cinematográfica nacional e sua relação como mercado até a atualidade, Lia Bahia constrói sua dissertação de mestrado apresentada ao PPGCOM da UFF com o título “Uma análise do campo cinematográfico brasileiro sob a perspectiva industrial”. A experiência pessoal como funcionária da Ancine foi o ponto de partida para as primeiras observações e questões que deram origem ao trabalho apresentado por ela.
            Para situar o leitor, o texto parte de uma abordagem histórica sobre como o cinema se desenvolveu no Brasil, especialmente entre os anos 1930 e 1990, sua relação com o Estado e os grupos que faziam e pensavam cinema na época. O processo histórico ressalta a relação que a produção cinematográfica brasileira sempre teve com os projetos estatais de reforçar a idéia de nação, a identidade do brasileiro. A autora ressalta, ainda os momentos em que importantes organismos foram criados, como por exemplo, o INC (Instituto Nacional de Cinema), Embrafilmes, Ministério das Comunicações, Funarte, Radiobrás, Telebrás. Trabalha os períodos pelos quais o cinema passou em relação à situação política do Brasil e de como era a produção cinematográfica antes, durante e depois da ditadura. Como os discursos culturais e políticos se estruturavam e de que forma isso afetava o cinema nacional.
            Os anos 90 são caracterizados como o período em que a cultura ganha um novo olhar, surgem leis de incentivo e um novo tipo de relação entre Estado e cultura que proporciona ao cinema um período conhecido como “retomada do cinema brasileiro”, não uma retomada enquanto proposta estética ou política, mas em virtude do financiamento e conseqüente aumento das produções, bem como de público. Além disso, a pesquisa ainda apresenta dados sobre o consumo de cinema em diversos períodos diferentes e comenta a relação com a televisão, ressaltando a perda de espaço que o cinema teve por causa dela, para o home-vídeo e outras formas de lazer.
            Após uma apresentação, alguns questionamentos e colocações acerca da legislação de incentivo à cultura atual, das fontes de financiamento, agências reguladoras, relação entre televisão e cinema, bem como ambos são tratados e enxergados pelo governo e pelos grupos organizados que pensam e discutem o setor audiovisual, a autora direciona seu foco para o mercado, a indústria cultural e a forma como o audiovisual se insere nela. Ela ressalta que na cadeia produtiva do cinema o setor da produção é o mais privilegiado pelo governo, enquanto distribuição e exibição ficam em segundo plano.
É importante ter em mente que os sistemas de regulação na área da cultura são mecanismos muito complexos porque, geralmente, de alguma forma, lidam com o subjetivo e regular esse tipo de meio é uma tarefa árdua. Não ignoramos com isso o fato de que certos temas são simples e poderiam ser definidos mais objetivamente, mas em outras questões as opiniões são divergentes e chegar a um consenso é sempre um grande desafio.
Este trecho da análise possibilita uma série de comparações com o meio musical. Por exemplo, se compararmos os investimentos feitos atualmente na produção cinematográfica com os da produção fonográfica veremos uma diferença gritante. Os apoios e patrocínios no setor audiovisual se mostram mais freqüentes e significativos que no setor musical. Sem esquecer que o mercado cinematográfico possui uma dinâmica diferente da praticada no fonográfico, é interessante pensar acerca das relações que podem ser estabelecidas entre ambos. Podemos dizer que o movimento é inverso: enquanto na música a primeira etapa é a produção no suporte que o público vai comprar e depois tem início a etapa do espetáculo para o qual o público vai se dirigir (o show), no caso do cinema temos primeiro a exibição em uma sala (o espetáculo), para depois o filme ser comercializado em home-video.
Assim como na indústria fonográfica, o mercado do cinema também precisa conviver com o “poderio” das majors, entretanto, sua natureza e os custos de produção, bem como os meios de distribuição ainda não conferiram a ele o processo de mudança que o mercado da música vem atravessando atualmente.
Além dessa relação com a indústria, a autora também dedica boa parte de sua pesquisa à relação entre cinema e televisão. Ela atenta para diversos fatores relativos aos contatos entre esses meios, em especial o papel das organizações Globo com a TV Globo e a Globo Filmes que atuam em ambos os setores. Seu trabalho questiona de forma consciente a presença de produção cinematográfica nacional na TV aberta e problematiza diversos aspectos referentes à presença (ou seria melhor dizer ausência?) do Estado enquanto regulador, ao espaço que o filme nacional encontra na televisão, ao padrão estabelecido pela emissora e conhecido como “padrão Globo de qualidade”, dentre outros fatores. Considera ainda as trocas que estão acontecendo atualmente entre os meios: a televisão se apropriando de técnicas de cinema e o cinema das utilizadas na televisão.
Ao falar das estratégias do cinema em relação ao sentimento de identidade nacional, Bahia nos lembra que a identidade é construída não apenas por aquilo que se é, mas também por aquilo que não se é, sendo assim, ao relacionarmos esta idéia com a música religiosa, teremos, por exemplo, que a música católica o é por ser ligada à Igreja Católica e também porque não é a evangélica, nem a secular ou outra classificação. Contudo, podemos notar neste caso uma questão que merece mais reflexão. Quando pensamos na música católica produzida para o mercado vemos estes conceitos um pouco misturados, afinal alguns músicos procuram mascarar a diferenciação, como é o caso dos que preferem utilizar letras que não os caracterizem como religiosos num primeiro momento. A forma como essa situação se desenvolve e pode ser analisada, no entanto é tema para estudos mais aprofundados do que a presente resenha.

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