Pinto (2009) observa que esta mutação criou uma disputa de poderes entre os Djs considerados autênticos (mais antigos) e os Djs rotulados como “vendidos” (os cultuados pela revista), visto que ambos expõem visões do que a música eletrônica deveria ser, quais integrantes têm o direito dela participar e qual é a forma certa de avaliá-la. Para o autor, o que se evidencia nesta disputa simbólica - através das opiniões emitidas no fórum de música eletrônica Rraurl (um dos mais antigos do Brasil) - é a busca de certos membros de defenderem seu espaço e a luta de tantos outros para participarem.
Baseando suas pesquisas nas obras de Pierre Bourdieu, Pinto analisa esta disputa por autoridade e exibição do capital cultural. Tanto que os Djs considerados autênticos apresentam a comercialização da música eletrônica como “a antítese do espírito underground”. O que mais chama a atenção foi que o autor, no capítulo “Quem é o melhor Dj do mundo?”, trata o fórum como uma voz autêntica – tendo autoridade para discutir sobre música eletrônica - e a mídia massiva como corruptora dos verdadeiros valores da cena. Durante toda a dissertação, esta visão foi legitimada pelo fato de só ter analisado este fórum, o qual defende a música eletrônica como cena underground. Fóruns com visões divergentes não foram analisados.
Enfim, a pesquisa foi defendida em 2009, porém é muito atual pelo fato de abordar batalhas de grupos em torno da apropriação dos bens culturais. Outra abordagem interessante é que a dissertação foca na transformação do artista underground em superstar, e quais impactos esta mudança pode trazer às identidades inseridas na cena eletrônica. Comparando o trabalho de Pinto com algumas questões relacionadas à indústria fonográfica atual, pode-se chegar a várias ideias. Por exemplo, o artista superstar cai no universo alternativo quando se lança em carreira independente de majors. A proposta também vai de encontro com disputas simbólicas relacionadas à perda de controle das majors na cadeia produtiva musical: distribuir as canções na internet ou não? Por que as editoras de Direitos Autorais não veem a licença Creative Commons com bons olhos? Por que músicos independentes se arrepiam quando escutam falar de Ecad e OMB? Desta forma, o trabalho de Pinto ajuda na discussão de projetos que envolvam disputas simbólicas; identidades; cibercultura e indústria cultural.
PINTO, Marcelo Garson Braule. Quem é o melhor Dj do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica. Niterói: UFF, 2009. 123 p.

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