sexta-feira, 13 de maio de 2011

Resenhas Melina

Em busca da independência fonográfica

A dissertação “A Nova Produção Independente – Indústria fonográfica brasileira e novas tecnologias da informação e da comunicação”, defendida por Leonardo de Marchi no PPGCOM/UFF; analisa a configuração de uma produção fonográfica independente a partir da década de 90. Segundo o autor, estas transformações na indústria fonográfica brasileira seriam pertencentes a uma Nova Produção Independente (NPI). De Marchi analisa este contexto através do estudo de caso de duas gravadoras indies: a carioca Biscoito Fino (MPB) e a paulista Trama (Pop-rock).

De Marchi (2006) utiliza-se da hipótese central de que a consolidação da produção independente é resultado da reestruturação do comércio fonográfico no país. Contexto promovido tanto pela reforma estrutural das majors (contenção de gastos; demissões e terceirização da produção devido à apropriação das tecnologias digitais) quanto pelo surgimento de novas práticas comerciais no ciberespaço e em mídias alternativas (rádios comunitárias, revistas especializadas em música etc). No capítulo 2, “A Velha Produção Independente”, o autor argumenta as diferenças em torno do uso do termo independente na década de 70, o qual tinha cunho político, e como a NPI saiu do caráter “marginal” transformando-se num nicho do mercado fonográfico. É neste ponto que De Marchi apresenta uma ótima contribuição para discussões sobre os impactos das tecnologias digitais na economia do entretenimento.

Porém, uma das principais críticas ao trabalho está relacionada ao fato que De Marchi entrevistou alguns artistas da VPI e não ouviu a opinião de nenhum músico que tenha sido contratado pela Biscoito Fino ou pela Trama. No capítulo 3, “A Nova Produção Independente”, o autor entrevistou apenas componentes administrativos de ambas. A visão de artistas das duas indies poderia contribuir ainda mais para o trabalho. Contudo, quem deseja se aprofundar nas transformações ocorridas na indústria fonográfica nacional é uma boa leitura.

De Marchi, Leonardo Gabriel. A Nova Produção Independente: indústria fonográfica brasileira e novas tecnologias da informação e da comunicação. Niterói: UFF, 2006. 151p.

Trocas de arquivos e contrato social

O software Napster e o protocolo Gnutella podem ter características em comum? De acordo com a dissertação “Troca de arquivos par a par: Napster, Gnutella e o desenvolvimento de tecnologias de Comunicação na internet” defendida por João Martins no PPGCOM/UFF, sim. Utilizando os dois objetos, o autor aborda a atuação e as relações de agentes envolvidos no desenvolvimento de tecnologias de comunicação voltadas para troca de arquivos. É exatamente esta rota que Martins toma para responder a questão “na relação com quais significados se constrói o ambiente de desenvolvimento de trocas de arquivos?”.

Para observar as concepções e valores que orientam esta prática colaborativa, Martins faz um estudo preliminar sobre a questão judicial em torno do Napster, no capítulo 3 “O crepúsculo dos deuses: As representações sociais do caso Napster”. No decorrer dele, o autor utiliza-se de pesquisas sobre o processo movido pelas majors contra o software junto à Corte Americana do Distrito do Norte da Califórnia. A ação judicial determinou o fim de suas atividades visto que, de acordo com o julgamento, Shawn Fanning (criador do Napster) foi acusado de infração decopyright. Na visão do autor, esta tensão lida com disputas simbólicas que operam com discursos acumulados de interesses de ambas as partes.

Já no capítulo 4, ”Produzindo P2P: As dinâmicas socioeconômicas de desenvolvimento Gnutella”, Martins comenta sobre diversidade dos espaços e dos envolvidos (usuários leigos; programadores interessados no aprimoramento de tecnologias etc) no protocolo de compartilhamento de arquivos. O foco do autor é descrever como eles lidam com as noções de associação comunitária e liberdade de propriedade. Para isso, observa as ações do grupo de discussão do Yahoo! conhecido como Gnutella Developer Forum. Neste trecho, Martins faz uma análise entre o paradigma da dádiva e as ações colaborativas entre estes usuários. Porém, o autor não se aprofunda muito neste momento e apresenta a dádiva como elemento concebido: uma espécie de presente (oferecido livremente sem intenções). Por isso, a discussão obteve um caráter bem inocente.

Existem dois interesses centrais na discussão: um relacionado aos mecanismos de construção de identidades; outro que diz respeito à delimitação de estruturas sociais, envolvendo distinções e delimitações de posições em grupos virtuais. Martins contribui ao iniciar uma discussão de como este processo de afirmação de identidades se baseia em uma estrutura de significado. E como esta dinâmica poderia ser um tipo de contrato social do ciberespaço. Quem se interessa pela troca de bens culturais no ciberespaço, a dissertação dá boas diretrizes para debates sobre o assunto.

MARTINS, João Damasceno. Trocas de arquivos par-a-par: Napster; Gnutella e Desenvolvimento de Tecnologias da Comunicação na Internet. Niterói: UFF, 2003.


Do underground para o mainstream

“O que faz um DJ ser mais autêntico e melhor do que os outros?”. Esta é a questão que instigou Marcelo Garson Braule Pinto a realizar a dissertação “Quem é o melhor DJ do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica”. Na pesquisa, Pinto (2009) utiliza a eleição de melhor DJ do Ano promovida pela revista inglesa DJ para observar as transformações na produção e distribuição de música eletrônica, a qual saiu da cena underground para a cultura massificada. Para isso, analisa o caso do DJ Tiesto, que manteve o título de “melhor DJ do Ano” por três vezes consecutivas.

Pinto (2009) observa que esta mutação criou uma disputa de poderes entre os Djs considerados autênticos (mais antigos) e os Djs rotulados como “vendidos” (os cultuados pela revista), visto que ambos expõem visões do que a música eletrônica deveria ser, quais integrantes têm o direito dela participar e qual é a forma certa de avaliá-la. Para o autor, o que se evidencia nesta disputa simbólica - através das opiniões emitidas no fórum de música eletrônica Rraurl (um dos mais antigos do Brasil) - é a busca de certos membros de defenderem seu espaço e a luta de tantos outros para participarem.

Baseando suas pesquisas nas obras de Pierre Bourdieu, Pinto analisa esta disputa por autoridade e exibição do capital cultural. Tanto que os Djs considerados autênticos apresentam a comercialização da música eletrônica como “a antítese do espírito underground”. O que mais chama a atenção foi que o autor, no capítulo “Quem é o melhor Dj do mundo?”, trata o fórum como uma voz autêntica – tendo autoridade para discutir sobre música eletrônica - e a mídia massiva como corruptora dos verdadeiros valores da cena. Durante toda a dissertação, esta visão foi legitimada pelo fato de só ter analisado este fórum, o qual defende a música eletrônica como cena underground. Fóruns com visões divergentes não foram analisados.

Enfim, a pesquisa foi defendida em 2009, porém é muito atual pelo fato de abordar batalhas de grupos em torno da apropriação dos bens culturais. Outra abordagem interessante é que a dissertação foca na transformação do artista underground em superstar, e quais impactos esta mudança pode trazer às identidades inseridas na cena eletrônica. Comparando o trabalho de Pinto com algumas questões relacionadas à indústria fonográfica atual, pode-se chegar a várias ideias. Por exemplo, o artista superstar cai no universo alternativo quando se lança em carreira independente de majors. A proposta também vai de encontro com disputas simbólicas relacionadas à perda de controle das majors na cadeia produtiva musical: distribuir as canções na internet ou não? Por que as editoras de Direitos Autorais não veem a licença Creative Commons com bons olhos? Por que músicos independentes se arrepiam quando escutam falar de Ecad e Ordem dos Músicos do Brasil (OMB)? Desta forma, o trabalho de Pinto ajuda na discussão de projetos que envolvam disputas simbólicas; identidades; cibercultura e indústria cultural.

PINTO, Marcelo Garson Braule. Quem é o melhor Dj do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica. Niterói: UFF, 2009. 123 p.

4 comentários:

  1. Você fez boas sínteses e apresentações dos trabalhos que escolheu para analisar, fazendo tanto elogios (em alguns casos diria em excesso), mas também apresentou os pontos que você considera que deveriam ser mais desenvolvidos nos textos, o que achei muito interessante. Porém, senti falta de uma análise que fosse global, comum a todos os textos, além de em nenhum momento você ter posto seu projeto em discussão, estabelecendo um diálogo com o trabalho dos autores analisados.

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  2. Assim como o Bruno, elogio as sínteses que você faz dos trabalhos. Não critico a não-explicitação das relações entre o seu projeto e as dissertações analisadas pois estas já se esclarecem pela escolha e pelo seu ponto de vista.
    Já minhas críticas se colocam em questões pontuais. Na primeira análise não ficou claro para mim a hipótese central. Houve de fato uma reestruturação do comércio fonográfico no país? A produção independente - no que se refere às gravadoras analisadas - realmente se consolidou? Não sou nenhum expert no assunto, mas o que vejo hoje é uma desestruturação completa do comércio fonográfico, até mesmo destas gravadoras médias, como a Trama e a Biscoito Fino. O que vejo hoje é uma ascensão da produção realmente independente (isto é, realizada pelos próprios artistas) e das produções subsidiadas pelas leis de incentivo. As tais revistas especializadas em música - exemplo dessa reestruturação - não existem mais hoje...
    Ou eu estou totalmente errado. Mas, de qualquer forma, não me ficou claro porque...
    Creio também que a conversa com os artistas seria importante para compreender outras formas de distribuição fonográfica. Porém, se o trabalho se restringe a compreender a indústria e as gravadoras, creio que recorrer aos artistas não seja mesmo fundamental.

    Na terceira análise, a critica à falta de distanciamento do Marcelo em relação ao fórum de discussão também poderia se aplicar à relação temporal ante o objeto. Se entendi bem, a questão analisada é tão atual e específica que a análise pode perder validade em breve, tendo em vista que as transformações neste campo são constante e pouco previsíveis. O distanciamento temporal e/ou uma compreensão histórica do campo poderia contribuir para uma análise mais consistente.

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  3. Da primeira resenha apenas compreendi que a dissertação pretendia analisar a produção independente apos uma reconfiguração a partir da década de 90. Mas sobre que ótica e qual problema? A resenha apresenta uma possível resposta como sendo em razão da restruturação da indústria e forma de distribuição possibilitada pelas NTIs. Mas como o problema não é construído e a resposta me parece mais a constatação de um contexto. Pela resenha não fica clara qual o problema que fui escrutinado na dissertação. Por isso não consigo chegar ao mesmo ponto de crítica sobre a dissertação de não ter ouvido a classe artística de algumas gravadoras independentes. Bem, até penso que isso é de fato relevante, mas, se esse é o ponto fraco da dissertação, deveria ter uma argumentação que nos conduzisse ao termo. Possivelmente seria necessário fazer uma melhor apresentação dos marcos teóricos e procedimentos metodológicos da dissertação; algo que foi completamente negligenciado.
    Já a segunda resenha é melhor apresentada de forma geral sendo pertinente a crítica realizada, porém poderia ser melhor desenvolvida; realmente demostrar como tal conceito não é concebido exatamente daquela forma e nem justifica-se o uso como foi feito.
    Aqui já se poderia fazer uma relação entre as dissertações. Há vários pontos de diálogo e que são importante para o seu trabalho. Ex: busca de autonomia de um campo, construção colaborativa e trocas simbólicas, ideia de autoria (e logo os direitos que ela traz) e trajetória. Podemos observar essas questões na resenha seguinte sobre Djs. As três dissertações, embora possuam objetos diferentes estão muito próximas em razão da natureza do problema. Seria muito mais interessante uma resenha que em vez de apresentar o fenômeno investigasse como uma certo conjunto de questões de uma mesma natureza são colocados frente a fenômenos diferentes. Possivelmente ficariam mais explícitos os limites metodológicos, pois cada fenômeno em suas particularidades necessita de uma abordagem diferentes. Acredito que isso poderia ser muito proveitoso para pensar o sei próprio objeto.

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  4. As resenhas conseguiram explicar ponto importantes dos trabalhos como objeto e hipótese. Fica evidente que os trabalhos se comunicam e dialogam com a proposta de pesquisa que a Melina oferece. Assim como eu, faltou apenas diálogar com o próprio projeto e mesmo dialogar as dissertações entre si. Cabe notar que a metodologia foi de uma síntese das dissertações, mas que não impediu Melina de realizar críticas e também elogiar as pesquisas.

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