segunda-feira, 16 de maio de 2011

Resenhas Selene

   
A morte do Rádio?

“Rádio na internet ainda é rádio?”, a reconfiguração do rádio e os desafios que a tecnologia apresenta para este veículo, com a chegada da escuta musical via computador e aparelhos reprodutores como MP3 Player, aliada ao compartilhamento de arquivos musicais, é o foco principal da dissertação de mestrado apresentada em 2010 por Jefferson Mickselly Silva Chagas no PPGCOM da UFF.

Intitulada “Rádio em tempos de Download: a reconfiguração do rádio FM musical diante das novas tecnologias da informação e da comunicação”, a pesquisa apresenta algumas considerações relevantes sobre como o rádio surgiu e se tornou um dos meios de comunicação de massa mais populares. O texto aborda ainda os caminhos que levaram à mudança da comunicação falada e exclusiva entre dois interlocutores para um sistema que privilegia a execução musical e se torna vitrine para a indústria fonográfica, sem deixar de lado o papel de informar (e portanto falar) e a idéia de comunicação na qual um fala para muitos. Contudo, diante dos novos paradigmas fica a dúvida se o que vem sendo chamado de rádio na internet realmente o é.

Para trabalhar essa temática, a discussão principal se dá em torno das adaptações feitas por rádios com programações voltadas para a execução musical. A partir do estudo de dois casos, as rádios Oi FM e MPB FM, o autor problematiza as questões que vão caracterizar algumas das estratégias utilizadas para manter a audiência e lidar com as inovações tecnológicas no campo da produção e distribuição musical.

Considerando a primeira como uma estação mais voltada para o público jovem que optou por investir mais fortemente na tecnologia mobile visando criar identificação e proporcionar mecanismos de interação, o autor analisa a estrutura da Oi FM e leva em consideração o fato de se tratar de uma emissora patrocinada por uma empresa de telefonia, percepção fundamental para compreender as estratégias utilizadas por ela para atrair seu público e se relacionar com ele.

Já no segundo caso trabalhado pelo autor, a plataforma utilizada foi a internet. Além de apresentar um panorama sobre a MPB FM, o autor analisa de que forma o uso do site, e de diversas outras ferramentas que se desdobram através dele, possibilita ao ouvinte uma experiência diferente com o rádio, quando ele pode interagir, manter alguma espécie de contato e se sentir participante através do próprio site, ou mesmo da presença da emissora em determinadas redes sociais.

Para dar conta destas questões um dos principais conceitos presentes é o de “remediação” proposto por Bolter e Grusin (2000), através do qual se sustenta a idéia contrária à uma possível “morte” do rádio. Outra consideração importante diz respeito ao relacionamento entre emissoras e indústria fonográfica, onde em um momento era a execução de uma música na rádio que fazia dela um sucesso e em outro são as gravadoras que decidem qual faixa vai ser tocada e se tornar sucesso.

Desta forma vemos que as regras do jogo podem se modificar, mas isso não significa um fracasso da tecnologia. Ouvir uma nova música na rádio “libera” o ouvinte de ter que procurar por novidades na web, ela simplesmente toca e pode agradar ou não.  Depois de ouvida, aí sim, será buscada e gravada p/ execução no MP3 Player caso tenha agradado. Mas o rádio permanece, mesmo que em tempos de internet, como uma fonte de novidades, um instrumento sempre pronto a ser executado. Uma coisa interessante neste sentido é justamente este caminho oposto, quando uma música chega ao ouvinte via rádio e depois assume maiores proporções, ao ponto de alcançar projeção na própria internet, de onde geralmente elas saem.

Uma diferenciação interessante feita pelo autor, diz respeito à proposta geral de cada iniciativa. Ele apresenta a Oi FM focada na interatividade, voltada para a personalização, já que trabalha tanto com as aplicações para celular. Enquanto que no caso da MPB FM nota-se que a proposta visa o fomento da participação coletiva.

Dentre as diversas análises apresentadas, talvez uma que tenha ficado um tanto negligenciada é a presença da Webcam nos estúdios enquanto estratégia de criar vínculo com o público. Apesar das emissoras analisadas não fazerem uso deste sistema, um questionamento mais aprofundado acerca disso poderia contribuir para um crescimento do conteúdo como um todo. Os motivos para a não adoção desta “moda” e se são conscientes ou inconscientes seria uma possibilidade de investigação interessante. Pensar o que as pessoas podem querer ver com as imagens do rádio, se realmente estão dispostas a dispor de algum tempo assistindo algo que pode ser simplesmente ouvido, e outras diversas questões.

Ao tratar da ressignificação do rádio e seguindo por todo o percurso traçado pelo autor, temos uma comparação válida que teria sido interessante se mais desenvolvida, trata-se das semelhanças e diferenças entre Webrádios, rádios piratas e os primeiros radioamadores. Podemos encontrar nesses três casos o desejo de estar em contato com outros, trocar informações e/ou publicizar notícias e músicas.

Vale ressaltar, ainda, alguns aspectos da pesquisa alvo desta resenha que se mostraram de grande interesse para outros estudos sobre mídia e música. Se pensarmos a relação entre rádio e religião e focarmos nas emissoras católicas, é possível notar alguns pontos de congruência com ambas as rádios estudadas por Jefferson.

A questão do patrocínio na Oi FM, por exemplo, tem sua correlação se pensarmos que, assim como a Oi FM não tem comerciais de outras operadoras de telefonia em sua grade, as emissoras católicas não veiculam propagandas de outras denominações religiosas e também não transmitem comerciais de produtos e/ou serviços que vão de encontro aos preceitos da religião. O que demonstra como os valores de uma empresa de comunicação são significativos na definição da grade de programação. Entretanto, diferentemente das emissoras puramente comerciais, em muitos casos, as rádios voltadas para a religião são completamente financiadas através de doações dos ouvintes, o que acaba sendo a renda principal e faz da publicidade algo secundário, quando existe.

Outro paralelo diz respeito à segmentação. Um mecanismo comum entre emissoras de rádio para garantir a fidelidade do público é segmentá-lo e distribuí-lo entre as estações do dial. O fato de termos rádios da religião “X” ou “Y” já é uma primeira segmentação clara, mas ainda dentro deste nicho podemos encontrar outras subdivisões estilísticas seja pela grade de programação, seja pelas estações em si.

Ao pensarmos no caso da MPB FM, que atua com força em seu site e nas redes sociais, também é possível verificar associações com as estratégias utilizadas pelas emissoras católicas. Em ambos os casos a proximidade entre emissora, artistas e público é fomentada, seja através da escuta online, da participação em salas de bate-papo voltadas para os programas no ar, do contato via email ou da troca de mensagens em redes sociais. Através da internet o ouvinte pode fazer pedidos de oração que são lidos no ar, oferecer músicas, votar nas melhores e participar de promoções para ganhar brindes.

O site funciona também como canal de divulgação dos artistas e ponto de contato entre eles e o público, já que são disponibilizadas informações sobre as músicas, bandas e cantores. Em muitos casos, como, por exemplo, nas rádios do Sistema Canção Nova de Comunicação, alguns programas são apresentados pelos próprios artistas, como acontece também na MPB FM no caso da Noite Preta (com a cantora Preta Gil). Aliado a internet, a rádio torna-se uma via para que o público consiga entrar em contato com o artista.

Enfim, as análises feitas por Chagas se mostram como um estudo relevante para auxiliar na compreensão do novo momento que o rádio tem experimentado e permite também contrapor as idéias alarmistas nas quais se apregoa a extinção do rádio como processo inevitável. Apresenta-se como uma linha de pensamento consciente e atenta às ressignificações e reordenações do mundo midiático.


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Cinema e mercado (com uma pitada de música)

Através de uma analise que compreender a formação da indústria cinematográfica nacional e sua relação como mercado até a atualidade, Lia Bahia constrói sua dissertação de mestrado apresentada ao PPGCOM da UFF com o título “Uma análise do campo cinematográfico brasileiro sob a perspectiva industrial”. A experiência pessoal como funcionária da Ancine foi o ponto de partida para as primeiras observações e questões que deram origem ao trabalho apresentado por ela.
            Para situar o leitor, o texto parte de uma abordagem histórica sobre como o cinema se desenvolveu no Brasil, especialmente entre os anos 1930 e 1990, sua relação com o Estado e os grupos que faziam e pensavam cinema na época. O processo histórico ressalta a relação que a produção cinematográfica brasileira sempre teve com os projetos estatais de reforçar a idéia de nação, a identidade do brasileiro. A autora ressalta, ainda os momentos em que importantes organismos foram criados, como por exemplo, o INC (Instituto Nacional de Cinema), Embrafilmes, Ministério das Comunicações, Funarte, Radiobrás, Telebrás. Trabalha os períodos pelos quais o cinema passou em relação à situação política do Brasil e de como era a produção cinematográfica antes, durante e depois da ditadura. Como os discursos culturais e políticos se estruturavam e de que forma isso afetava o cinema nacional.
            Os anos 90 são caracterizados como o período em que a cultura ganha um novo olhar, surgem leis de incentivo e um novo tipo de relação entre Estado e cultura que proporciona ao cinema um período conhecido como “retomada do cinema brasileiro”, não uma retomada enquanto proposta estética ou política, mas em virtude do financiamento e conseqüente aumento das produções, bem como de público. Além disso, a pesquisa ainda apresenta dados sobre o consumo de cinema em diversos períodos diferentes e comenta a relação com a televisão, ressaltando a perda de espaço que o cinema teve por causa dela, para o home-vídeo e outras formas de lazer.
            Após uma apresentação, alguns questionamentos e colocações acerca da legislação de incentivo à cultura atual, das fontes de financiamento, agências reguladoras, relação entre televisão e cinema, bem como ambos são tratados e enxergados pelo governo e pelos grupos organizados que pensam e discutem o setor audiovisual, a autora direciona seu foco para o mercado, a indústria cultural e a forma como o audiovisual se insere nela. Ela ressalta que na cadeia produtiva do cinema o setor da produção é o mais privilegiado pelo governo, enquanto distribuição e exibição ficam em segundo plano.
É importante ter em mente que os sistemas de regulação na área da cultura são mecanismos muito complexos porque, geralmente, de alguma forma, lidam com o subjetivo e regular esse tipo de meio é uma tarefa árdua. Não ignoramos com isso o fato de que certos temas são simples e poderiam ser definidos mais objetivamente, mas em outras questões as opiniões são divergentes e chegar a um consenso é sempre um grande desafio.
Este trecho da análise possibilita uma série de comparações com o meio musical. Por exemplo, se compararmos os investimentos feitos atualmente na produção cinematográfica com os da produção fonográfica veremos uma diferença gritante. Os apoios e patrocínios no setor audiovisual se mostram mais freqüentes e significativos que no setor musical. Sem esquecer que o mercado cinematográfico possui uma dinâmica diferente da praticada no fonográfico, é interessante pensar acerca das relações que podem ser estabelecidas entre ambos. Podemos dizer que o movimento é inverso: enquanto na música a primeira etapa é a produção no suporte que o público vai comprar e depois tem início a etapa do espetáculo para o qual o público vai se dirigir (o show), no caso do cinema temos primeiro a exibição em uma sala (o espetáculo), para depois o filme ser comercializado em home-video.
Assim como na indústria fonográfica, o mercado do cinema também precisa conviver com o “poderio” das majors, entretanto, sua natureza e os custos de produção, bem como os meios de distribuição ainda não conferiram a ele o processo de mudança que o mercado da música vem atravessando atualmente.
Além dessa relação com a indústria, a autora também dedica boa parte de sua pesquisa à relação entre cinema e televisão. Ela atenta para diversos fatores relativos aos contatos entre esses meios, em especial o papel das organizações Globo com a TV Globo e a Globo Filmes que atuam em ambos os setores. Seu trabalho questiona de forma consciente a presença de produção cinematográfica nacional na TV aberta e problematiza diversos aspectos referentes à presença (ou seria melhor dizer ausência?) do Estado enquanto regulador, ao espaço que o filme nacional encontra na televisão, ao padrão estabelecido pela emissora e conhecido como “padrão Globo de qualidade”, dentre outros fatores. Considera ainda as trocas que estão acontecendo atualmente entre os meios: a televisão se apropriando de técnicas de cinema e o cinema das utilizadas na televisão.
Ao falar das estratégias do cinema em relação ao sentimento de identidade nacional, Bahia nos lembra que a identidade é construída não apenas por aquilo que se é, mas também por aquilo que não se é, sendo assim, ao relacionarmos esta idéia com a música religiosa, teremos, por exemplo, que a música católica o é por ser ligada à Igreja Católica e também porque não é a evangélica, nem a secular ou outra classificação. Contudo, podemos notar neste caso uma questão que merece mais reflexão. Quando pensamos na música católica produzida para o mercado vemos estes conceitos um pouco misturados, afinal alguns músicos procuram mascarar a diferenciação, como é o caso dos que preferem utilizar letras que não os caracterizem como religiosos num primeiro momento. A forma como essa situação se desenvolve e pode ser analisada, no entanto é tema para estudos mais aprofundados do que a presente resenha.

4 comentários:

  1. A primeira resenha (“A morte do Rádio?”), de modo geral, conseguiu transmitir as idéias da dissertação de forma clara e objetiva, consegui entender as questões e reflexões acerca das duas emissoras de rádio utilizadas na dissertação. No entanto, no parágrafo em que cita os teóricos trabalhados e, principalmente, quando coloca o conceito de “remediação”, poderia tê-lo desenvolvido mais, isto porque o texto não apresenta o que é este conceito de “remediação”, somente foi dito de forma rasa o propósito de ter usado este conceito que seria sustentar “a idéia contrária a uma possível “morte” do rádio”. Outro ponto positivo foi a relação feita entre as análises da dissertação e o próprio tema de pesquisa, música e rádios católicas, contudo a autora poderia ter assumido o motivo de ter destinado 3 parágrafos do texto para essa comparação. Assim, para um leitor que não acompanha as aulas de metodologia, ficaria claro o porquê, dentre os diversos “estudos sobre mídia e música” cuja dissertação desperta interesse, a autora escolheu desenvolver um pouco mais a relação entre emissoras católicas.

    A segunda resenha (“Uma análise do campo cinematográfico brasileiro sob a perspectiva industrial”), também escrita de forma bastante clara e objetiva, apresenta um levantamento do percurso de pesquisa da autora da dissertação. O problema é que o texto não apresenta o problema central da dissertação, qual era a principal questão da autora ao desenvolver essa pesquisa, fica evidente sim uma análise histórica do cinema brasileiro. As criticas e questões, no entanto, são melhores apresentadas ao relacionar os campos da música com o cinema nesta resenha. Acredito que faltou justificar a escolha de comparar o cinema à produção musical, pelo menos uma introdução, além do título, contextualizar a análise.

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  2. Em ambas as resenhas a autora apresenta de forma bem introdutória o objeto das dissertações analisadas, o que faz com que um leitor que não tenha tido acesso às dissertações consiga se situar quanto ao objeto e o argumento.

    Na primeira resenha, senti um pouco de falta de uma discussão teórica um pouco mais ampla. Quando a Selene falou na resenha em "remediação" (conceito que ela referencia na discussão) e em "fracasso de uma tecnologia", fiquei com a sensação de que na dissertação haveria uma discussão mais ampla acerca de alguns conceitos como, sei lá, interdependência eletrônica, por exemplo. Estou chutando um exemplo mcluhaniano que nem sei se está na dissertação, mas que me parece fundamental para se discutir um tema onde dois meios se "permeiam". Usei o conceito só pra situar o meu ponto de que talvez essa discussão teórica pudesse ter sido exposta na resenha, mesmo que de maneira rápida.

    Na segunda resenha a autora situa muito bem o contexto histórico onde o cinema se desenvolve que é abordado na dissertação, mas vou concordar (em partes) com a Ravena: não consegui encontrar uma questão/problema - pelo menos não de forma clara e explícita. Fiquei com a sensação de que o trecho em que a Selene diz que a autora da dissertação "questiona de forma consciente a presença de produção cinematográfica nacional na TV aberta e problematiza diversos aspectos referentes à presença do Estado enquanto regulador" poderia ser talvez um problema central da pesquisa, mas faltou um indicativo textual neste sentido. Procede, Selene?

    Achei interessante e bem bacana a metodologia utilizada pela Selene de levantar questões acerca do seu próprio objeto de pesquisa nas resenhas, inserindo a questão da rádio católica na primeira resenha e o paralelo com a indústria fonográfica na segunda. No geral, os textos são claros e apresentam bem o objeto, como já mencionado.

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  3. Observou-se ao longo das resenhas produzidas por Selene um esforço de mobilizar diálogos entre sua pesquisa e os textos aqui resenhados.
    Ela tem facilidade de estabelecer elos, com possibilidade de avançar algumas questões já expostas nos textos de Bahia e Chagas. Dos suportes variados, como cinema, rádio on line, Selene extrai questões que tangenciam direta e indiretamente seu tema.
    Elaborou uma exposição panorâmica de cada uma das resenhas, em una ponderou de forma mais crítica, na outra foi menos densa quanto a problematização dos temas e reconhecimento de elementos construtivos das ideias dos autores. As formalidades como hipótese, metodológica foram diluídas no texto, a ponto de serem absorvidas de forma sutil pelo leitor das resenhas – em um texto muito claro.
    Selene, parabens pelos textos.

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  4. Ravena e Layanna a nossa total sintonia nos comentários apresentam os pontos positivos do texto da Selene e também aspectos que poderiam ser aprofundados.Gostei de ver esta semelhaça. Também concordo com as duas colegas quanto a clareza na exposição das ideias e na capacidade de Selene de converter o conhecimento para um público mais amplo.

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