sábado, 14 de maio de 2011

Subjetividade na experiência fotográfica

O trabalho produzido pela Claudia Linhares Sanz, “Passageiros do tempo e a experiência fotográfica: da modernidade analógica à contemporaneidade digital”, em linhas gerais, tem por objetivo central traçar a relação entre a experiência de temporalidade e o ato fotográfico. A autora questiona o quanto a fotografia ainda tem ganhado relevância como forma de documentar nossas experiências atuais e a partir deste ponto tenta estabelecer uma relação entre essa produção excessiva de imagens fotográficas e a experiência temporal contemporânea.

O percurso de análise da autora pauta-se sobre uma perspectiva histórica. Ao invés de uma definição do que é fotografia, ela optou por destacar o que muda nos conceitos de fotografia durante o seu percurso histórico. Qual a relação que a fotografia exerce com a representação do real e com a temporalidade na Modernidade e na Contemporaneidade, ou melhor, que mudanças ocorrem na produção fotográfica destes dois tempos ou mesmo o quê permanece como ponto de semelhança?

Antes mesmo de mapear as épocas em questão no seu trabalho, a autora traz, como o título já sugere, uma nota sobre do tempo no qual deixa evidentes suas escolhas teóricas e abordagens sobre o objeto a ser estudado. Ela define o conceito de tempo, que será abordado no trabalho, sob a ótica foucaultiana de um tempo configurado sobre as práticas sociais, as relações de poder; um tempo a-histórico capaz de produzir novos objetos e formas de subjetivação. Entender este posicionamento, dá ao leitor o suporte para compreender os caminhos de observação traçados e as questões levantadas pela autora para compreender a fotografia dentro de cada contexto histórico abordado.

No desenvolvimento do seu trabalho, a autora compõe uma complexa argumentação levando em consideração diversos fatores a fim de entender a fotografia como produto de uma experiência de subjetivação, além de consequência de uma inserção temporal, iniciada na modernidade e amplificada no contemporâneo. Entretanto, esta resenha não daria conta de atravessar e questionar a grandeza deste trabalho e optei por recortar a análise da autora acerca de um ponto específico do contexto da Modernidade que suscitou a invenção de um modo de representação fotográfico.

Um dos posicionamentos da autora é apresentar a construção da subjetivação na modernidade, ou a corporificação dos sujeitos, como fundamentos contextuais do momento histórico de surgimento da fotografia. Diante de uma “genealogia da visão” (Jonathan Crary), a autora coloca que a modernidade inaugura um observador interpretativo, ou seja um observador que questiona a própria percepção como fonte de conhecimento puro e transparente sobre o mundo. Esse foco nos modos subjetivos de percepção não garante mais a apreensão de um real neutro e objetivo e, com isso, se instaura uma crise de representabilidade, na definição de Foucault.

O interessante da abordagem da autora é que leva em consideração os paradoxos da época para sustentar sua análise. Assim, tal crise de representabilidade, fruto da construção de um observador subjetivo e parcial, e da descrença da visualidade como modo de verdade, faz emergir, em paralelo, um projeto científico positivista que transfere à máquina o papel de conhecimento e apreensão do real. Mesmo contraditórias em princípio, tais movimentos nada mais que expõem relações de poder que, em face dessa crise, buscam meios de disciplinar e controlar uma visão subjetiva do mundo. E neste contexto o advento da fotografia se apresenta como o instrumento óptico mais adequado e eficaz para este processo.

Seguindo este raciocínio, a autora desmonta uma questão crucial nas teorias fotográficas que considera que a fotografia liberta a pintura do papel de representar a realidade para experimentar outras formas de linguagem. Na verdade, o que se coloca é que a fotografia não é a causa dessa libertação na pintura moderna, e sim ambos são produtos dessa construção da subjetividade, frutos do mesmo sistema de forças, mas que responderam de formas distintas. A pintura, contrariamente ao que ocorre com a fotografia, apropria-se dessa corporificação do sujeito para realizar experiências no campo perspectivo e das sensações visuais, assim surgem vanguardas que pretendem expressar o modo como aspectos do mundo são percebidos, destacando elementos constituintes da visualidade (a exemplo dos impressionistas que ousaram trabalhar com a percepção das cores).

Uma contribuição (dentre as várias que não puderam ser abordadas) que este trabalho acrescenta ao campo fotográfico é que traz uma nova perspectiva de análise para a invenção da fotografia e, tal fato, pode ser decisivo para conduzir as abordagens mais atuais no campo fotográfico. Ou seja, a consolidação da imagem fotográfica, não está em considerá-la, sobre o ponto de vista da técnica, mais fiel a realidade que a pintura, e sim pelo fato de que, através dos regimes de percepção, o observador torna-se subjetivo e sua visão incapaz de adquirir o verdadeiro real. Concluindo, a abordagem da invenção da fotografia desloca-se da questão de uma comparação puramente de ordem técnica para as práticas sociais e subjetividades que configuram e permitem mudanças nos modos de representação e consolidações de determinadas técnicas em detrimento de outras.

3 comentários:

  1. O texto construiu uma análise acerca da experiência fotográfica pensando na subjetividade produzida por esta na modernidade. O caminho adotado na análise consegue apresentar bem pontos que possibilitem entendimento da dissertação. A autora da resenha, para tanto, identifica claramente o objeto:FOTOGRAFIA; Expõe o problema: identificação das mudanças fotográficas na temporalidade; e Hipótese: subjetivação do mundo com o advento da fotografia.
    Cabe mencionar ainda que a autora da resenha centra sua análise em um ponto da dissertação: "optei por recortar a análise da autora acerca de um ponto específico do contexto da Modernidade que suscitou a invenção de um modo de representação fotográfico." Entendi a justificativa dada. Mas questiono por que optar por este ponto da dissertação para a análise dado que a perspectiva histórica é , segundo a autora da resenha, o percurso da análise na dissertação? Será que o (s) ponto (s)não apresentados não trariam contribuições?

    Lucineide Magalhães

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  2. Esta dissertação deve ter ficado muito interessante. Nunca tinha pensado nessa relação entre a ideia de subjetivação e a corporificação dos sujeitos e suas relações com a fotografia. Fiquei pensando, como a própria autora disse, que se os modos subjetivos de percepção já não garantiam a apreensão de um real neutro e objetivo, antigamente... Imagine, hoje em dia, com todos estes softwares de edição de imagens.
    Pensemos em como esta crise de representabilidade, como diz Foucault, não deve estar totalmente fora de controle atualmente. Agora que podemos manipular as imagens, tirando o indesejável ou esteticamente inviável... maquiando as imperfeições de nossas estruturas físicas...ou tirando as marcas do tempo. Pior: acrescentando objetos que gostaríamos que fizessem parte dessas representações de nosso cotidiano.
    Fiquei com algumas dúvidas relacionadas ao trabalho: Cláudia observou representantes dessa modernidade analógica e da contemporaneidade digital? Como ela aborda essa produção de subjetividade através da fotografia? A resenha está bem objetiva, Ravena, só senti falta de alguma crítica relacionada ao trabalho...

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  3. Sua análise é bastante descritiva e imparcial, deixando de, por exemplo, dialogar com a dissertação que você pretende elaborar. Senti falta de você expor mais suas próprias questões: onde isso se relaciona com o seu projeto; como dialoga com sua questão; de que forma pode te ajudar na elaboração do seu trabalho; onde você concorda e discorda etc. Entretanto, sua resenha me pareceu bastante sintética.

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