Trabalho 01: Retrato Falado – Uma Fábula Cômica do Cotidiano
Dissertação de mestrado de Marina Caminha, UFF, 2007.
Esta dissertação analisa as marcas do documentário, melodrama e grotesco na série humorística Retrato Falado, buscando estabelecer os limites entre informação e entretenimento no ambiente televisivo através da compreensão da poética desta série de formato experimental.
É interessante aqui a tentativa de delinear os contornos do gênero narrativo cômico, de uma possível poética do gênero. O esforço é feito na tentativa de estabelecer pontos de diferença e convergência entre o discurso ficcional e o informativo, marcas fortemente presentes na obra analisada.
As questões postas sobre discurso informativo e documental são razoavelmente bem resolvidas pelo trabalho, porém, o mesmo não acontece com as questões referentes ao gênero cômico. A caracterização do gênero e de seus mecanismos narrativos básicos é bem construída pela autora, mas, ao estabelecer o que seriam possíveis caracterizações de estruturas diferentes de narrativas cômicas na televisão brasileira (a fim de estabelecer o que há de inovador em Retrato Falado), a autora se vale mais de argumentos de senso comum e de uma catalogação histórica que de uma tipologia que reflita de fato sobre a estrutura narrativa desses formatos.
É feita uma divisão do humor na televisão brasileira em dois grandes momentos: um inicial e outro no qual técnicas de vídeo modificam a poética. Neste segundo momento, a autora fala da importância das novas tecnologias do vídeo na poética dos programas televisivos, mas não aborda exatamente como isso se constrói especificamente no caso dos programas televisivos cômico, propiciando uma discussão rasa sobre um assunto que teria muito a contribuir neste campo de estudos. Ao se deter mais sobre a construção do texto cômico, a autora cai na análise da construção de piadas no programa, detendo-se ao “por que é cômico” (análise contextual de cada piada).
Trabalho 02: Realidade Lacrimosa – Diálogos entre o Universo do Documentário e a Imaginação Melodramática
Tese de doutorado de Mariana Baltar, UFF, 2007
O trabalho busca detectar e desenvolver diálogos possíveis entre o documentário o melodrama, problematizando, para isso, duas questões: a do status do documentário de reprodutor fiel da realidade e a do melodrama como gênero restrito a determinados tipos de narrativo. O trabalho apresenta o melodrama não apenas como um gênero dramático, mas como um modo de pensar o mundo instaurado pela Modernidade. O melodrama seria no âmbito da cultura a materialização de uma lógica da Modernidade da pedagogia no excesso, que através deste traço educa as emoções de sua audiência.
O trabalho aborda aspectos do melodrama que são interessantes para pensar o gênero cômico e suas particularidades (em particular, em seu segundo capítulo: Imaginação Melodramática – instâncias do privado e pedagogia das sensações). O melodrama é descrito como um modo de pensar o mundo baseado uma lógica normativa imposta por narrativas deste gênero, cujos principais mecanismos são o excesso e a redundância. Traçando um paralelo entre o melodrama e o humor, é possível observar que, enquanto o excesso no melodrama se apresenta a partir da reiteração de uma “moral oculta”, no humor temos o oposto: a reiteração de uma moral subversiva, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de enfatizar que há uma lógica normativa que está sendo quebrada pela narrativa.
O melodrama na tese é tratado como fruto da lógica da Modernidade (melodrama como modo de percepção do mundo, imaginação melodramática), lógica esta que está ligada à industrialização e à serialilzação, e que também atingiu o âmbito da cultura, no qual se viu surgir produtos culturais criados em série. Seguindo esta lógica, surgem as ficções seriadas, sendo as comic strips um dos primeiros formatos do gênero.
Apesar deste trabalho em muito contribuir para a compreensão da lógica da Modernidade e para pensar os produtos culturais que surgiram a partir da daí (especialmente a lógica serial e massiva), ao ampliar a noção de melodrama de gênero para projeto abrangente da lógica da Modernidade, há a perda dos contornos da construção de outros gêneros narrativos neste contexto. Afinal, todos os demais gêneros passam a ser permeados de características melodramáticas a partir da Modernidade? E, neste caso, como se daria esta relação? Essas questões deixadas não bem esclarecidas no trabalho dificultam pensar como o humor, por exemplo, se reconfigura a partir desta imaginação melodramática e dentro da lógica da pedagogia do excesso.
Trabalho 03: Piadas e tiras em quadrinhos – uma aproximação possível
Trabalho de Paulo Ramos (USP), apresentado no 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul
O trabalho busca investigar a relação entre a estrutura da piada construída verbalmente e a tira cômica, num jogo de semelhanças e diferenças. Seu objetivo é entender as relações entre as duas estruturas, de que modo dialogam.
As questões discutidas são interessantes por problematizarem uma relação que geralmente não é a abordada ou ainda que muitas vezes é encarada como algo bem resolvido: o que justifica, estruturalmente, a consolidação do formato de tiras cômicas? Há uma relação estrutural que justifique este encaixe aparentemente harmônico?
Para tanto, o autor analisa inicialmente as duas estruturas em separado, a fim de estabelecer possíveis conexões entre as estruturas básicas de cada uma. A parte da análise que compreende o levantamento bibliográfico e argumentação sobre a estrutura da piada verbal, está bem posta e construída. Porém, ao chegar na análise das características da tira enquanto meio, o trabalho deixa um pouco a desejar.
Uma de suas principais limitações é tratar o elemento visual nos quadrinhos como mero suporte da narrativa textual, não explorando como a indissociabilidade entre o elemento gráfico e o texto como fator primordial à estrutura da tirinha. Essa limitação acaba por influenciar no desenvolvimento do trabalho, que chega a conclusões relativamente óbvias, como a relação entre os dois formatos dada pela brevidade da estrutura das duas estruturas.
Síntese:
Os dois primeiros trabalhos dialogam mais intensamente entre si por colocarem em questão a relação entre gêneros de representação da realidade e gêneros reconhecidamente ficcionais. No primeiro, há a problematização entre discurso informativo e humor e, no segundo, a discussão entre as possíveis relações do documentário com o melodrama.
Os dois dão importantes contribuições nos esforços de caracterizar os gêneros narrativos aos quais se referem, embora o segundo trabalho, até por ser de maior complexidade, oferece uma contribuição mais relevante ao ajudar a entender como se configurou a lógica da Modernidade no campo cultural. Esse aspecto, no caso específico do meu trabalho, ajuda a pensar o contexto em que as narrativas seriadas surgem e se inserem, em especial as comic strips, um dos primeiros formatos do gênero.
Apesar disso, o primeiro trabalho dialoga mais com as questões trabalhadas no meu projeto – sobre a serialização cômica – visto que problematiza o gênero cômico em si. Esta dissertação, no entanto, padece de um problema freqüente em trabalhos que abordam o gênero: o uso de afirmações de “senso comum”. Nesta dissertação, em particular, há o esforço da autora em definir formatos que expressam diferentes contextos da apresentação se séries cômicas na televisão brasileira, porém essa tipologia apresentada padece de embasamento, de um respaldo analítico e teórico que justifiquem a classificação apresentada. Esse esforço, por exemplo, é visto no referencial teórico oferecido por Omar Calabrese e Arlindo Machado para pensar estruturas de ficções seriadas televisa em geral (sem especificação de gênero) e poderia ter sido usado, no caso, para pensar possíveis estruturas e estratégias peculiares à serialização cômica.
Já o terceiro trabalho é o que mais dialoga com o assunto tratado pelo meu projeto, uma vez que coloca em discussão a estrutura de comic strips e da piada verbal. O trabalho oferece uma contribuição interessante ao problematizar uma questão muitas vezes dada como resolvida, mas cai também no “senso comum” ao considerar os elementos gráficos como mero aporte dos elementos textuais, deixando de lado uma questão que em muito teria para contribuir no campo de estudos sobre quadrinhos, sobretudo.
Em termos gerais, ainda são poucos os trabalhos que problematizam a questão da serialização. Há muitos trabalhos sobre séries em geral, mas cuja análise se concentra em aspectos internos das obras analisadas. Os mecanismos de serialização como estratégia de manutenção da longevidade de narrativas ficcionais ainda são pouco explorados, embora haja no Brasil uma bibliografia interessante sobre o assunto – voltada à análise de estudos televisivos – como os referenciais oferecidos por Arlindo Machado e Renata Pallottini.
A mesma escassez é válida para estudos sobre o gênero cômico em produtos culturais massivos. O modo como o gênero se apresenta estruturalmente em séries de ficção seriadas ainda é pouco explorado. Também aqui é muito comum a análise de aspectos internos de determinadas séries, que não problematizam a questão da serialização em si. Há, no entanto, trabalhos interessantes no Brasil que fazem uma reflexão sobre os aspectos estruturais da narrativa cômica, porém a grande maioria deles localiza-se na área de Letras. Ainda são poucos os trabalhos na área de Comunicação que se voltam a esse tipo de análise.
Em relação ao campo dos quadrinhos, o terreno é ainda mais árido. Muitos estudos ainda privilegiam a questão textual em detrimento da questão gráfica, não considerando em suas análises as contribuições que a parte gráfica tem a dar na formatação das narrativas em quadrinhos.
É necessário, portanto, sair do campo das afirmações rasas no âmbito das relações entre gênero, formato e meio em séries cômicas no formato comic strips, através da problematização de e esclarecimento de questões de base que muitas vezes recebem pouca atenção nas análises ou ainda, que são encaradas como questões já bem resolvidas, mas que na verdade carecem de reflexão.
A primeira resenha, sobre a dissertação de Marina Caminha, expõe a pesquisa, permite compreensão básica sobre seu objeto, mas possui alguns questionamentos que não são solucionados, como, por exemplo, quando cita a falta de uma “tipologia que reflita de fato sobre a estrutura narrativa”. Que “tipologia” seria essa? Talvez fosse recomendável desenvolver melhor os argumentos da autora, ou mesmo os questionamentos.
ResponderExcluirEm relação à segunda, sobre o trabalho de Mariana Baltar, pude perceber correlações importantes entre o melodrama e o humor que poderiam ter sido mais explorados. A questão da moral, por exemplo, é bem interessante de ser pensada. No caso dos seus questionamentos finais, Jéssica, acredito que eles possam ser respondidos, ainda que apenas em parte pelo seu trabalho.
Na resenha sobre o texto de Paulo Ramos ficou clara a proposta do autor, mas senti falta de mais detalhes para entender melhor como ele desenvolveu seu pensamento.
Falando sobre o geral, percebi que o “senso comum” parece um questionamento recorrente, mas que não é contraposto com alguma corrente ou autores que possam responder à demanda criada por ele. Como sugestão para o problema da questão textual se sobrepondo à questão gráfica, sugiro uma pesquisa entre os trabalhos da EBA-UFRJ (Escola de Belas Artes). Lá tem um pessoal que trabalha bastante com quadrinhos, charges etc. Talvez possa ser uma fonte de referências nesse meio.
Oi, Jéssica.
ResponderExcluirGostei da sua solução de traçar um panorama dos trabalhos e depois fazer uma síntese, tentando encontrar pontos discordantes e em comum entre eles. No entanto, como eu já disse nas minhas outras análises, é interessante a gente expor o questionamento de cada trabalho, a problemática, para entendermos o eixo de construção do trabalho, a razão da existência de cada capítulo, a escolha das teorias que vão embasar as discussões dos autores das pesquisas. As suas três análises ficaram muito bem descritivas, o que me deu a sensação de plena compreensão das pesquisas, mas fiquei curiosa por saber a justificativa de cada autor sobre a relevância dos respectivos trabalhos em suas áreas de estudo, ou seja, em que cada trabalho avança na discussão dos seus objetos. Muito interessante a relação que você fez dos trabalhos com o seu projeto, mas fica a minha sugestão de você ser mais clara em relação ao que é a problematização do gênero cômico. É que fiquei curiosa a respeito disso, já que não é a minha área de estudo. Fiquei também interessada na questão de que existe um senso comum ao considerar “os elementos gráficos como mero aporte dos elementos textuais, deixando de lado uma questão que em muito teria para contribuir no campo de estudos sobre quadrinhos”. Qual é a questão que poderia relativizar esse senso comum? Por que é importante desconstruirmos, nesse caso, o senso comum e por que esse senso comum foi naturalizado?
Selene e Michele, sei que o combinado era aguardarmos os quatro comentários para responder aos questionamentos dos colegas, mas como não terei como fazer isso amanhã, antes da aula, não achei de bom tom deixar as contribuições de vocês sem respostas. Vamos lá então.
ResponderExcluirSelene, para começar, agradeço a dica sobre as pesquisas da EBA, na UFRJ. Irei buscar essas fontes. Em relação às contribuições do trabalho de Mariana, são muitas sim. Estou em contato direto com ela, numa disciplina que ela ministra na pós, e já falamos sobre os desafios dessa classificação de gêneros narrativos. No entanto, há questões ainda um tanto nebulosas e são sobre elas que recaem meus comentários.
Em relação à problematização do gênero cômico, Michele, é uma questão bastante complexa. Eu mesma ainda estou em processo de compreensão. Mas quando falo que as análises deixam de lado em determinado momento questões de base, me refiro ao foco que muitas dão à análise do conteúdo de piadas num determinado contexto, ainda que a proposta dos trabalhos inicialmente seja discutir as particularidades da estrutura narrativa do gênero de modo mais geral. Apesar de críticas os trabalhos nesse sentido, eu mesma confesso que esse trabalho não é fácil e a bibliografia é escassa. Muitos autores falam sobre os traços gerais do humor, mas muitas vezes não é possível a partir disso entender a estrutura narrativa de obras do gênero, especialmente aquelas que são mais extensas que piadas.
No mais, os questionamentos de vocês duas recaem em pontos semelhantes, então tentarei responder a ambas agregando as questões. Concordo que não me fiz muito clara nas resenhas em relação aos pontos de crítica (como Pamela inclusive colocou em sala de aula). Acabei tornando alguns pontos inacessíveis a quem não conhece esta área de estudos, tentarei esclarecer, na medida do possível, algumas coisas.
O principal alvo de minhas críticas no primeiro e terceiro trabalho (acredito que as questões do segundo sejam menos problemáticas) é a questão metodológica mesmo. No primeiro trabalho, a autora propõe uma divisão dos sitcoms brasileiros em fases, mas seus critérios para isso não são tão claros, o que limita a rica contribuição que ela poderia dar, uma vez que é raro encontrar classificações deste tipo. No caso do terceiro trabalho, quando falo que fica no “senso comum” é que ele parte de uma premissa de uma antiga tradição da semiologia da imagem que a subjuga, por assim dizer, ao texto. Há, no entanto, discussões mais recentes sobre o assunto que falam sobre a indissociabilidade das duas linguagens e isso não é problematizado pelo autor.
Não sei se consegui esclarecer os questionamentos de vocês, mas, de modo geral, é isso.