A dissertação da Letícia Matheus se baseia em 27 reportagens do jornal O Globo, ambas do ano de 2003, que tratam de dois episódios específicos de violência urbana: um assalto à estação São Francisco Xavier do metrô, no bairro da Tijuca, zona norte da capital fluminense, que culminou na morte da estudante Gabriela Prado Ribeiro, então com 14 anos de idade, e o incidente no qual uma bala perdida atingiu outra estudante, no campus Rebouças da Universidade Estácio de Sá, situado no Rio Comprido, bairro vizinho à Tijuca, resultando em grandes sequelas à vítima, Renata Ramires.
Tendo como base os eventos citados acima, Cantarela desenvolveu seu ensaio tomando como temática o estudo do sensacionalismo em um jornal tido como não-sensacionalista pelo senso comum, abordando, evidentemente, a sensação de medo e insegurança na cidade, em forma de narrativa. Para isso, um dos principais conceitos com o qual a autora trabalha é o de “tríplice memória”, de Paul Ricouer, que, segundo o qual, se estruturaria em três momentos: prefiguração, configuração e refiguração.
Sua hipótese principal é a de que as coberturas sobre os dois casos produziram um efeito de continuidade por uma memória compartilhada do medo, disseminado temporal e espacialmente na representação midiática da realidade, dialogando, também, com os conceitos de “medos subjetivos” e “medos subjetivados”, do historiador francês Delumeau.
Como hipótese secundária, Cantarela esboçou uma espécie de “personagens” do imaginário do medo, listando o traficante (membro da classe perigosa, marginalizada); a morte imprevisível ou não-natural, como uma expressão de “fracasso” da racionalidade da sociedade atual; e a percepção de fragilidade na metrópole, gerando um senso de desordem.
Já a dissertação de Carolina Zoccoli se preocupa em pensar o discurso da imprensa sobre o aquecimento global, no ano de 2007, igualmente no jornalismo de O Globo. Motivada por uma matéria da revista Veja sobre o caos no clima, a autora já pode esboçar alguns elos sobre as visões jornalísticas a respeito do aquecimento global. De acordo com Zoccoli, estaria havendo uma espécie de “humanização” na retratação do problema, personalizado na adoção da figura do urso polar como o grande símbolo do sofrimento causado pelas mudanças climáticas; o uso de imagens chocantes e de impacto violento, como pelo uso de sangue; e a adoção de um vocabulário de medo, beirando o estado de guerra.
Assim, Zoccoli vai abordar o uso de elementos sensacionalistas no processo de formação do discurso sobre o aquecimento global.
Já meu projeto sobre os “multimedos” visa expandir o debate, alargando a outras vertentes. Busco identificar traços dos jogos de interesses e disputas por trás de coberturas relacionadas à sensação de medo e entender qual seria seu impacto na sociedade, através da transmissão, recepção e percepção das informações, sob o viés do pânico, do pavor e do receio, além de procurar entender a construção do imaginário de medo pela mídia, e sua contribuição na formação das visões de mundo sobre o tema. Para isso, fez-se uma tipologia ideal dos principais medos contemporâneos: o medo causado pelas mudanças climáticas, o medo acerca do terrorismo (estes a nível universal); o medo de envelhecer e o medo de não aparecer, ou de não ser visto (estes percebidos a nível individual).
A proposta é fazer uma inter-relação entre medo e outros dois conceitos, que acredito chave para que possamos compreender o desenvolvimento deste processo na sociedade contemporânea: sua relação com a intimidade e com o consumo. Desta forma, parto da questão: de que forma conceitos de intimidade e consumo estariam relacionados na construção do imaginário social do medo? Parte-se da hipótese de que os meios de comunicação agem de forma a criarem e/ou estimularem não apenas a era dos “multimeios” e do “turboconsumo”, mas também a dos “multimedos” e das “turbofobias”. Diante disto, enxergamos que a grande ambiguidade com que a mídia joga atualmente é o fato de que conquanto estimule, por exemplo, que os indivíduos devam ser diferentes, assumirem uma postura própria, única, singular, idiossincrática, caso da publicidade, lembra a todo o momento que estes mesmos indivíduos não devem fugir do ideal do “padrão de normalidade”, caso da fala jornalística. Assim, a mídia utiliza constantemente a inequívoca tensão entre o estímulo publicitário versus a contenção jornalística.
Então, como, por que e para que as práticas dos meios de comunicação empregadas são construídas utilizando de estratégias da via do “terrorismo psicológico”? Como hipótese secundária, defendemos que esta é uma forma de incitar os sujeitos a agirem em conformidade com determinados ditames, seja no campo do consumo, nas áreas eleitorais, no âmbito do comportamento e na própria visão de mundo e subjetividade do sujeito. Deste modo, empregamos o termo “terrorismo” não apenas como uma forma de violência física, ou relacionada a eventos de atentados, mas também como uma violência psicológica, a qual não deixa de ser menos perigosa ou agressiva, já que também é capaz de deixar marcas e traumas na vida dos sujeitos.
A resenha de ambos trabalhos cita como o medo adquire um tratamento estruturado em modelos narrativas no jornalismo. É o que fica evidente quando se fala de personagens do imaginário do medo, ou quando se fala de uma humanização da pauta do fenômeno global – tornar o urso polar como um foco narrativo, etc. Aqui parece que o jornalismo sensacionalista passa por uma configuração narrativa dos acontecimentos. Mas seria interessar buscar quais matrizes narrativas seriam essas as do sensacionalismo. Existem vários modelos narrativos e nem todos se permeiam de uma atmosfera sensacional e exagerada.
ResponderExcluirBem, creio que esse ponto de relações (tão patente a ponto de ser visível em uma brevíssima resenha) não receberam interesse na leitura. Podemos ver que logo relatado as linhas gerais das dissertações você avança sobre o seu trabalho e sobre temas e conceitos que pretende discutir e esboçando os pontos em que esse debate se expande. A resenha (e aparentemente o trabalho a ser desenvolvido) prescinde dessa discussão da configuração de acontecimentos em notícia; notícia que para entrar no círculo da produção do medo são pautadas cada vez mais em modelos narrativos próprio ao desenvolvimento do sensacionalismo, como por exemplo os gêneros melodramáticos.
Outra uma consequência disso é não tomar alguns conceitos acionados nos trabalhos anteriores para o seu próprio contexto. Quando o primeiro trabalho convoca o termo da tríplice memória de Paul Ricouer, o pretendido é desenvolver como as narrativas sobre o medo configuram um modo de nos relacionarmos com os temas a tal ponto de reconhecermos personagens, não nas narrativas, mas sobre o próprio fato. Mas ao mesmo tempo a tríplice memória possui uma aspecto pré-configurado; as narrativas sobre o medo não instauram o medo mas o acolhem dentro de suas estruturas (configuração) e reconfiguram os sujeitos em suas relações anteriores que se tinha com os temas. Aqui a ênfase é sobre o circulo da produção de sentido que não se prende em um pólos da comunicação.
A resenha não deteve atenção nas referências teóricas de partida para tratar o fenômeno e por isso legou ao segundo plano a questão da narrativa do medo (enquanto estrutura textual), e que tal narrativa é considerado como um processo que participa da produção de sentido sobre o medo (o que aparentemente é desenvolvido na primeira dissertação) e que se organiza usando matrizes de uma certa poética (analisada na segunda dissertação). Em resumo, sinto falta de um esforço em relacionar as dissertações para além do objeto.
Bruno, tua proposta de análise é muito boa porque coloca teu objeto em plena comunicação com as dissertações. Você realizou uma apresentação bem sucinta dos dois trabalhos em detrimento de uma correlação com teu projeto. Porém isso acabou por conduzir a análise dos trabalhos a segundo plano. A tua metodologia acabou por referenciar mais teu projeto, sem contudo aprofundar nas dissertações, dado que foi realizada uma apresentação superficial das mesmas.
ResponderExcluirTua proposta de comparação é louvável. Eu mesma não fiz isso com as minhas, ainda sabendo que era possível essa comunicação e que traria maior resultado.
É assim mesmo vamos aprendendo com o tempo.
A metodologia adotada por Bruno de correlacionar os textos de Matheus (2006) e Carneiro (2008) ao seu projeto de mestrado foi louvável. Entretanto Bruno fez uma exposição rasa acerca dos dois trabalhos, detendo-se demasiadamente a sua pesquisa em detrimento de uma análise mais proveitosa. O tema do medo sobre o enfoque da violência urbana e do desmatamento ambiental converge para a proposta de pesquisa do resenhista, entretanto este não problematizou as categorias de análise, apenas as citou.
ResponderExcluirCreio que em termos de formato, talvez a resenha do Bruno tenha sido uma das mais bem sucedidas. Ele explicita o objeto, questão e hipóteses de cada autora e, depois, consegue vincular as dissertações ao seu objeto de pesquisa de maneira muito eficaz e própria.
ResponderExcluirNo entanto, apesar da boa exposição teórica e do objeto e das hipóteses dos trabalhos, senti falta na resenha de uma explicação do COMO foi feito. Por exemplo, COMO a Cantarela "põe a mão na massa" ao tratar das reportagens de O Globo nos dois casos de violência explorados? É uma análise de enquadramento? Como ela faz isso? Como ela coloca que o jornal constrói essa narrativa, essas "estórias"? O mesmo ocorre na dissertação da Zoccoli - a qual aliás você dedicou menos de um terço do espaço que você dedicou para a da Cantarela. Também cabia uma análise mais detalhada da operacionalização da pesquisa.
Fiquei com essa questão na cabeça principalmente após ler o texto do Mark Fishman para a aula do Marco Roxo que fazemos juntos, Bruno. Quando o Fishman vai analisar a onda de crimes contra idosos que acontecem em New York na década de 1970, coloca que ele percebeu aspectos na cobertura dos crimes que pareciam estar contribuindo para a própria existência da tal "onda de crime". Então o autor coloca a tal onda como um conceito organizador - ele é mais que um tema, ele permite que incidentes separados sejam vistos como interrelacionados - e no caso da sua pesquisa sobre o "medo" acho que isso é fundamental.
Algumas questões que pensei: será que essa construção social do medo que você coloca, essa noção contínua de insegurança, não seria um "conceito organizador? Um evento público produzido pelo próprio trabalho jornalístico, que o explora para sempre ter notícias? A questão do medo existe há século no jornalismo, sempre retorna e sempre é atual.
Posso ter viajado (acho que eu deveria terminar todos os meus comentários assim, rs) mas sei lá, acho que é uma idéia que pode ajudar!