domingo, 8 de maio de 2011

A nova produção independente: indústria fonográfica brasileira e novas tecnologias da informação e da comunicação


Autor: Leonardo de Marchi
Ano: 2006

Por Michele Cruz Vieira

Esta dissertação tem como objetivo central relacionar a nova produção independente da música brasileira com as transformações da indústria fonográfica nos anos 2000. O questionamento em torno da importância das gravadoras independentes nos sistemas de produção e distribuição no atual mercado de música nacional inicia-se com base na hipótese de que a consolidação da produção independente nacional é fruto da reestruturação do comércio fonográfico no país promovido tanto pela reforma das grandes empresas quanto pelo surgimento de novas práticas comerciais relacionadas às tecnologias digitais.


Pretende-se também questionar a ideia do senso comum de que há uma crise na indústria fonográfica em virtude das novas práticas tecnológicas no consumo e produção da música. O autor propõe compreender a existência de uma reestruturação da fonografia no país, na qual as relações entre grandes gravadoras e as independentes e tornam complexas.

Apesar de ter objetivo e hipótese centrais claros, a pesquisa não apresenta uma problematização, no sentido de que não deixa claro de que modo a discussão sobre a nova produção independente avança nas discussões sobre a indústria fonográfica e os estudos de música no país. O autor faz uma tentativa de apontar um problema, quando menciona a quase inexistência de bibliografia sobre a indústria fonográfica no país e também os empecilhos que se colocam às pesquisas neste setor, como a ausência de informações confiáveis sobre o mercado fonográfico brasileiro, já que as empresas são fechadas para a divulgação de seus balanços.

Caso a pesquisa apresentasse uma revisão da literatura a respeito da indústria fonográfica, destacando os enfoques das obras de referência na área, poderia diferenciar-se dessas visões anteriores e colocar sua questão central. Quanto à ausência de fontes confiáveis, não houve a proposta de uma metodologia que driblasse esse problema. O autor, em seu capítulo 3, menciona que a partir dos anos de 1990, houve um interesse da mídia especializada pelas produções independentes na música nacional.


Poderia, dessa forma, ter sido realizada uma pesquisa empírica nas matérias publicadas nessa mídia para avaliar de que forma estava sendo construída uma idéia da produção musical independente e também para reconhecer quais as fontes legitimadas que forneciam informações a respeito do mercado musical brasileiro.

As facilidades tecnológicas para a produção e consumo da música são idéias centrais no trabalho e estão presentes na conclusão do autor, quando este afirma que não foi a tecnologia que incomodou as grandes gravadoras, mas os seus usos. No entanto, ao longo do trabalho, não houve uma discussão mais ampla dos usos sociais das tecnologias, ou seja, sobre o que está em jogo nas formas de apropriações tecnológicas.

Dessa forma, o autor explicita um pensamento que relaciona diretamente as transformações tecnológicas a uma mudança nas formas de produção e consumo da música, sem levar em conta, por exemplo, as questões culturais envolvidas não só na disseminação da tecnologia como também nas transformações causadas por ela. O trabalho, nesse sentido, merecia uma discussão sobre as mudanças culturais que promoveram as mudanças da materialidade da música.

Para uma discussão mais ampla sobre a independência fonográfica, o autor utilizou como objetos de análise as gravadoras Trama e Biscoito Fino. No entanto, não abordou elementos centrais que poderiam possibilitar um questionamento mais completo, como a investigação empírica específica da carreira de artistas importantes nesta cena. Detalhes sobre suas trajetórias delimitariam melhor a prática dessa produção independente na música e as formas de visibilidade de suas produções musicais. Além disso, seria uma forma de diferenciar a carreira de um artista de uma gravadora independente de um artista de gravadora comercial, já que uma das propostas da pesquisa é conceituar o termo independente tendo como referência o que se chama de prática comercial.

Além disso, as gravadoras Trama e Biscoito Fino ficam em cidades distintas, em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente. Dessa forma, torna-se pertinente a existência de uma diferenciação dos mercados fonográficos em questão, que parecem ter dinâmicas distintas em virtude das diferenças culturais de seus públicos. Aqui a cultura se coloca novamente como um conceito essencial de análise, capaz de produzir categorias distintas a serem observadas, como por exemplo, as formas de consumo musical, o perfil de seus públicos, a pirataria, os usos tecnológicos para o consumo da música.


Metodologicamente, esses elementos poderiam ter contribuído para a construção de um cenário mais amplo e completo para a compreensão de como o cenário independente foi capaz de reposicionar a indústria fonográfica no país e de como as gravadoras independentes e as comerciais se relacionam e se posicionam nesse cenário, e também se contrapõem.

Após a análise desta pesquisa, surgiu a questão sobre a possibilidade de existência de uma segmentação do mercado fonográfico no Brasil, o que pode estar fazendo surgir duas indústrias fonográficas distintas, uma independente e outra comercial. Se podemos falar hoje de um mercado fonográfico unificado, dividido em duas partes, ou se devemos tratar a existência de dois tipos distintos de indústria da música. Será que poderemos identificar a existência de uma multiplicidade de mercados fonográficos?







2 comentários:

  1. Repetiria o que escrevi sobra a análise da Melina. Mas então vejo que seria um senso comum pensar que há uma crise na indústria fonográfica. A renda e a vendagem das gravadoras não decaiu drasticamente nos últimos anos? Então estou errado. Mas novamente não entendi porque...
    Creio que a crítica ao autor por este não descrever um cenário mais amplo das gravadoras independentes (como nas discussões culturais) é bastante pertinente. Da forma como parece que o autor coloca, a discussão parece partir e se concentrar em algo específico (algumas gravadoras "independentes" do eixo Rio-São Paulo) para comprovar algo muito mais amplo (as transformações gerais da indústria fonográfica no Brasil)

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  2. Michele, vou compilar aqui os comentários sobre as suas três resenhas. A análise do trabalho de Fernando Morais está muito clara e bem fundamentada. As críticas parecem pertinentes e seus argumentos embasam de modo eficaz as limitações que o trabalho apresenta. Essa eficácia perde um pouco do fôlego, no entanto, no último parágrafo de sua resenha, quando você fala da conclusão do trabalho, afirmando que “(...) percebemos que o som no cinema foi tratado mais como uma questão técnica e não como o resultado da convergência entre cultura”. Nesse ponto, não fica claro porque isso deveria ser um problema diante dos objetivos apresentados pelo autor.

    Considero a resenha sobre o trabalho de Kátia Fraga também clara e bem fundamentada. Discordo apenas de sua argumentação sobre o termo “fidelização”. Na lógica do marketing de relacionamento (ao menos a em vigor atualmente), este termo engloba a questão dos afetos também e pressupõe que há interação entre as partes.

    Quanto à resenha do trabalho de Leonardo di Marchi, também é bastante clara, mas você bate muito na questão de que o autor deveria ter dado um enfoque mais central à questão cultural envolvida no processo ao qual ele se refere. Não fica claro, no entanto, se isso é algo que o autor “prometeu” em seus objetivos e não cumpriu ou se é uma opinião sua. Sendo o último caso, falta mais argumentação à sua crítica neste sentido.

    Acredito que uma análise das três dissertações (especialmente da segunda) à luz das questões que você trabalha facilitaria uma melhor compreensão das limitações dos trabalhos para os leitores leigos.

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