domingo, 8 de maio de 2011

Laços de família: a construção de uma comunidade de afeto no programa Jairo Maia


Autor: Kátia Fraga
Ano:2005

Por: Michele Cruz Vieira

Esta pesquisa parte do pressuposto de que é no afeto e só por ele que podemos nos juntar em grupos, em comunidades, a fim de buscarmos um lugar socialmente seguro. Partindo dessa premissa, o objetivo central do trabalho é discutir a construção de uma comunidade afetiva que se consolida através da relação entre o ouvinte e o radialista, tendo a locução como lugar central de configuração de identidade.

A pesquisa está bem delimitada, já que tem um objeto bem claro e viável de estudo, o programa Jairo Maia, irradiado há 44 anos em emissoras capixabas. Como questão central de investigação, a autora pretende discutir como o programa consegue manter a fidelização de ouvintes ao longo de tantos anos. Como metodologia de análise, a pesquisa propõe desvendar a relação locutor-ouvinte, considerando a interface comunicacional do radialista. Para a construção metodológica, a pesquisa parte da hipótese central de que a locução é um importante lugar de mediação e configuração de identidade, que demonstra a empatia do radialista.

O grande problema desta pesquisa está na diluição do objeto de análise, que é original e inédito na bibliografia do rádio até então, em meio a discussões teóricas a respeito de estratégias que o rádio usa para se aproximar dos ouvintes. A questão central a ser discutida são os afetos criados pelos usos que os ouvintes fazem do rádio, mas estas afetividades não aparecem nos dois primeiros capítulos, quando a autora parte para a demonstração de conceitos puramente teóricos e técnicos, deixando de lado os seus objetos empíricos instigantes que foram citados na introdução: as cartas, ligações diárias e visitas de fãs que o programa recebe diariamente.

O primeiro capítulo refere-se à conceituação do que é mediação, o que é essencial para a reflexão de sua hipótese central. No entanto, esse conceito poderia ser exemplificado com a demonstração dos afetos dos ouvintes presentes nas fontes que a pesquisa prometeu analisar em sua parte introdutória. Seria mais interessante conceituar uma mediação específica do rádio, a qual é totalmente distinta dos outros meios, analisando de que forma o público se apropria do rádio e constrói sentidos para ele. Além disso, construir uma conceituação do que a autora chama de afetos seria relevante na categorização de elementos encontrados nas fontes e que poderiam provar a construção de uma comunidade afetiva.

Ao longo do trabalho, o que percebemos é uma valorização do papel do locutor e de suas estratégias, sem levar em conta as relações que este estabelece a todo o momento com os ouvintes, além de existir também uma relação com os produtores, com a emissora, enfim, com outros atores sociais que fazem parte da construção do programa. E que a fala do locutor acontece pela troca simbólica, constante, entre ele e os ouvintes. O trabalho analisa o locutor, isoladamente, dando a entender que existe uma autonomia de seu trabalho nas emissoras e que seu papel é preponderante nas formas de escuta dos ouvintes.

Outro problema é a utilização recorrente da palavra “estratégia para designar a performance do locutor. Tal palavra tem um significado de algo construído anteriormente, pensando com o objetivo de conquistar algo previamente planejado. Tal conceito pode dar a entender que existe todo um planejamento do locutor antes de ir ao ar, no intuito de prender o ouvinte. Isso, no entanto, anula toda a discussão sobre a existência da imprevisibilidade da comunicação no processo de interação da programação ao vivo, em que o locutor não sabe qual a deixa do ouvinte e, por isso, não pode planejar sua atuação. Esse termo pode obscurecer a existência das trocas simbólicas na produção dos sentidos do rádio pelos ouvintes.

O termo “fidelização” do ouvinte também deve ser questionado neste trabalho, pois o objetivo é tratar da construção de afetos e não de fidelidade ao rádio. Por isso, como foi dito anteriormente, seria necessária uma conceituação do que são afetos. Fidelização é uma palavra que remete à uma prática mercadológica, construída a partir de regras para “fisgar” o cliente. Nesta pesquisa, este termo destoa do objetivo central, que é o de compreender a construção de afetos, ou seja, de como os ouvintes significam as mensagens radiofônicas e deixam transparecer sensibilidades específicas, sem necessariamente serem fidelizados, fisgados por estratégias.

Aqui a questão é compreender o sentido emocional do rádio, numa relação de mão dupla, em que o locutor, a programação como um todo, produtores e ouvintes, uns agem sobre os outros, sem essa visão de mão única que a palavra “fidelização” pode sugerir. Se pensarmos assim, o locutor é fidelizado pelos ouvintes, pois ele optou por falar durante 44 anos para o mesmo público.

A análise empírica das fontes (cartas, telefonemas, visitas dos ouvintes) não deixou clara a construção de uma comunidade de afetos. As sensações geradas pelo programa nos ouvintes não pôde ser percebida na escolha das fontes, pois elas apenas demonstraram que existe uma audiência e uma aprovação desses ouvintes pelo programa. O lado inovador que o trabalho promete não é visível na pesquisa, pois afetos são entendidos como alegria, tristeza, raiva, esperança, entre outras sensações. E isso não foi identificado na metodologia de análise das fontes.

Na bibliografia recorrente sobre o rádio, os ouvintes não aparecem como agentes produtores de sentido da história do veículo. E este trabalho poderia ter dado ênfase nas expectativas do público em relação ao que o rádio deve representar na vida de cada um, o que exprimiria, então, a questão dos afetos.

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