Autor: Fernando Morais da Costa
Ano: 2006
Por Michele Cruz Vieira
Esta pesquisa parte do argumento do senso comum de que o som é o que há de pior nos filmes nacionais. Como este tipo de pensamento se coloca aqui como um questionamento central, a pesquisa se tornaria mais complexa se o autor apresentasse um material empírico que descrevesse esse discurso, com o qual ele quer dialogar para rever este tipo de visão. Dessa forma, estariam claros quais são seus interlocutores e em que medida eles serão questionados.
O objetivo principal da pesquisa, no entanto, é afirmar a importância do som no cinema brasileiro, o qual foi negligenciado pela bibliografia sobre cinema que tematiza a imagem como objeto central. Para a construção desta problemática, o autor propõe traçar a história do cinema sonoro no país a partir de uma delimitação em quatro fases, que vão desde 1902 até os dias de hoje. Esta opção metodológica de construção de recortes históricos facilita a compreensão das transformações tecnológicas pelas quais o cinema passou e que possibilitaram as mudanças de produção sonora.
Como o problema central que se apresenta gira em torno da ausência de análises bibliográficas sobre a importância do som, seria relevante o autor fazer uma revisão da literatura sobre a teoria do cinema e investigar como foram abordados até então a questão do som e da imagem, em separado, no cinema. Com estas discussões, a pesquisa poderia explicitar o seu avanço nas discussões que compõem a teoria do cinema. O autor fez referências a nomes de teóricos e a obras que se referem ao som no cinema, no entanto, não demonstrou a perspectiva de cada uma delas, o que impossibilitou o diálogo entre esta nova proposta e as antigas visões sobre a sonoridade cinematográfica.
O trabalho, no entanto, contribui para a compreensão do surgimento das tecnologias, mas não as trata como parte de um processo histórico e cultural que permitirá que as apropriações e aplicações do aparato tecnológico sejam distintas. Além disso, o trabalho poderia contribuir para a trajetória sonora do cinema, caso fizesse uma conceituação das paisagens sonoras nas diversas etapas históricas que abordou. Isso porque as formas de escuta do público serão determinadas por aspectos históricos e culturais e elas fazem parte de uma ideia mais ampla de projeto sonoro, já que o autor usa a perspectiva de que é importante avaliar a produção dos sentidos pelo som nas audiências.
Conceituar sonoridade no cinema também seria relevante a este trabalho, já que o autor se propõe a trabalhar com categorias sonoras como os ruídos e o silêncio, que segundo ele, possuem discursividade. Por isso, categorizar os tipos de sons e suas aplicações na formação de um ambiente sonoro seria fundamental para a discussão de que não só a música, mas outros tipos de marcas acústicas são portadoras de discurso, capazes de produzir diferentes sentidos mediante sua utilização em diferentes épocas e contextos.
Na parte final da pesquisa, a música popular é abordada como uma categoria sonora que explicou o sucesso do cinema em meados dos anos de 1930. Aqui, a abordagem de uma discussão sobre a cultura da época é relevante para a discussão sobre como se realizava o consumo de música. Talvez a conceituação da existência de uma circularidade da cultura, em que os bens culturais se movimentavam entre a indústria fonográfica, o rádio e o cinema. Aqui caberia uma investigação sobre a relação que o cinema tinha com as gravadoras e com as emissoras de rádio e verificar se não existiu uma transferência cultural, em que os gostos musicais eram pautados pelo rádio e pela indústria fonográfica e depois reproduzidos pelo cinema.
Na conclusão da tese, percebemos que o som no cinema foi tratado mais como uma questão técnica e não como o resultado da convergência entre cultura, momento histórico e transformações tecnológicas, categorias que podem nos elucidar a escolha das opções de sonorização e o produto final sonoro, os quais as audiências absorverão a partir de formas individuais e diferenciadas de escuta, sempre determinadas pelo tempo em que vivem.
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