“Rádio na internet ainda é rádio?”, a reconfiguração do rádio e os desafios que a tecnologia apresenta para este veículo, com a chegada da escuta musical via computador e aparelhos reprodutores como MP3 Player, aliada ao compartilhamento de arquivos musicais, é o foco principal da dissertação de mestrado apresentada em 2010 por Jefferson Mickselly Silva Chagas no PPGCOM da UFF.
Intitulada “Rádio em tempos de Download: a reconfiguração do rádio FM musical diante das novas tecnologias da informação e da comunicação”, a pesquisa apresenta algumas considerações relevantes sobre como o rádio surgiu e se tornou um dos meios de comunicação de massa mais populares. O texto aborda ainda os caminhos que levaram à mudança da comunicação falada e exclusiva entre dois interlocutores para um sistema que privilegia a execução musical e se torna vitrine para a indústria fonográfica, sem deixar de lado o papel de informar (e portanto falar) e a idéia de comunicação na qual um fala para muitos. Contudo, diante dos novos paradigmas fica a dúvida se o que vem sendo chamado de rádio na internet realmente o é.
Para trabalhar essa temática, a discussão principal se dá em torno das adaptações feitas por rádios com programações voltadas para a execução musical. A partir do estudo de dois casos, as rádios Oi FM e MPB FM, o autor problematiza as questões que vão caracterizar algumas das estratégias utilizadas para manter a audiência e lidar com as inovações tecnológicas no campo da produção e distribuição musical.
Considerando a primeira como uma estação mais voltada para o público jovem que optou por investir mais fortemente na tecnologia mobile visando criar identificação e proporcionar mecanismos de interação, o autor analisa a estrutura da Oi FM e leva em consideração o fato de se tratar de uma emissora patrocinada por uma empresa de telefonia, percepção fundamental para compreender as estratégias utilizadas por ela para atrair seu público e se relacionar com ele.
Já no segundo caso trabalhado pelo autor, a plataforma utilizada foi a internet. Além de apresentar um panorama sobre a MPB FM, o autor analisa de que forma o uso do site, e de diversas outras ferramentas que se desdobram através dele, possibilita ao ouvinte uma experiência diferente com o rádio, quando ele pode interagir, manter alguma espécie de contato e se sentir participante através do próprio site, ou mesmo da presença da emissora em determinadas redes sociais.Para dar conta destas questões um dos principais conceitos presentes é o de “remediação” proposto por Bolter e Grusin (2000), através do qual se sustenta a idéia contrária à uma possível “morte” do rádio. Outra consideração importante diz respeito ao relacionamento entre emissoras e indústria fonográfica, onde em um momento era a execução de uma música na rádio que fazia dela um sucesso e em outro são as gravadoras que decidem qual faixa vai ser tocada e se tornar sucesso.
Desta forma vemos que as regras do jogo podem se modificar, mas isso não significa um fracasso da tecnologia. Ouvir uma nova música na rádio “libera” o ouvinte de ter que procurar por novidades na web, ela simplesmente toca e pode agradar ou não. Depois de ouvida, aí sim, será buscada e gravada p/ execução no MP3 Player caso tenha agradado. Mas o rádio permanece, mesmo que em tempos de internet, como uma fonte de novidades, um instrumento sempre pronto a ser executado. Uma coisa interessante neste sentido é justamente este caminho oposto, quando uma música chega ao ouvinte via rádio e depois assume maiores proporções, ao ponto de alcançar projeção na própria internet, de onde geralmente elas saem.
Uma diferenciação interessante feita pelo autor, diz respeito à proposta geral de cada iniciativa. Ele apresenta a Oi FM focada na interatividade, voltada para a personalização, já que trabalha tanto com as aplicações para celular. Enquanto que no caso da MPB FM nota-se que a proposta visa o fomento da participação coletiva.
Dentre as diversas análises apresentadas, talvez uma que tenha ficado um tanto negligenciada é a presença da Webcam nos estúdios enquanto estratégia de criar vínculo com o público. Apesar das emissoras analisadas não fazerem uso deste sistema, um questionamento mais aprofundado acerca disso poderia contribuir para um crescimento do conteúdo como um todo. Os motivos para a não adoção desta “moda” e se são conscientes ou inconscientes seria uma possibilidade de investigação interessante. Pensar o que as pessoas podem querer ver com as imagens do rádio, se realmente estão dispostas a dispor de algum tempo assistindo algo que pode ser simplesmente ouvido, e outras diversas questões.
Ao tratar da ressignificação do rádio e seguindo por todo o percurso traçado pelo autor, temos uma comparação válida que teria sido interessante se mais desenvolvida, trata-se das semelhanças e diferenças entre Webrádios, rádios piratas e os primeiros radioamadores. Podemos encontrar nesses três casos o desejo de estar em contato com outros, trocar informações e/ou publicizar notícias e músicas.
Vale ressaltar, ainda, alguns aspectos da pesquisa alvo desta resenha que se mostraram de grande interesse para outros estudos sobre mídia e música. Se pensarmos a relação entre rádio e religião e focarmos nas emissoras católicas, é possível notar alguns pontos de congruência com ambas as rádios estudadas por Jefferson.
A questão do patrocínio na Oi FM, por exemplo, tem sua correlação se pensarmos que, assim como a Oi FM não tem comerciais de outras operadoras de telefonia em sua grade, as emissoras católicas não veiculam propagandas de outras denominações religiosas e também não transmitem comerciais de produtos e/ou serviços que vão de encontro aos preceitos da religião. O que demonstra como os valores de uma empresa de comunicação são significativos na definição da grade de programação. Entretanto, diferentemente das emissoras puramente comerciais, em muitos casos, as rádios voltadas para a religião são completamente financiadas através de doações dos ouvintes, o que acaba sendo a renda principal e faz da publicidade algo secundário, quando existe.
Outro paralelo diz respeito à segmentação. Um mecanismo comum entre emissoras de rádio para garantir a fidelidade do público é segmentá-lo e distribuí-lo entre as estações do dial. O fato de termos rádios da religião “X” ou “Y” já é uma primeira segmentação clara, mas ainda dentro deste nicho podemos encontrar outras subdivisões estilísticas seja pela grade de programação, seja pelas estações em si.
Ao pensarmos no caso da MPB FM, que atua com força em seu site e nas redes sociais, também é possível verificar associações com as estratégias utilizadas pelas emissoras católicas. Em ambos os casos a proximidade entre emissora, artistas e público é fomentada, seja através da escuta online, da participação em salas de bate-papo voltadas para os programas no ar, do contato via email ou da troca de mensagens em redes sociais. Através da internet o ouvinte pode fazer pedidos de oração que são lidos no ar, oferecer músicas, votar nas melhores e participar de promoções para ganhar brindes.
O site funciona também como canal de divulgação dos artistas e ponto de contato entre eles e o público, já que são disponibilizadas informações sobre as músicas, bandas e cantores. Em muitos casos, como, por exemplo, nas rádios do Sistema Canção Nova de Comunicação, alguns programas são apresentados pelos próprios artistas, como acontece também na MPB FM no caso da Noite Preta (com a cantora Preta Gil). Aliado a internet, a rádio torna-se uma via para que o público consiga entrar em contato com o artista.
Enfim, as análises feitas por Chagas se mostram como um estudo relevante para auxiliar na compreensão do novo momento que o rádio tem experimentado e permite também contrapor as idéias alarmistas nas quais se apregoa a extinção do rádio como processo inevitável. Apresenta-se como uma linha de pensamento consciente e atenta às ressignificações e reordenações do mundo midiático.
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