terça-feira, 10 de maio de 2011

De inventores a ouvintes: O rádio no imaginário científico e tecnológico (1920/1930)

Michele Cruz Vieira defendeu em 2010 a dissertação sobre o processo de implantação do rádio no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro com a Rádio Sociedade. A autora baseia-se na dicotomia entre popular e elitista para avaliar as mudanças que a programação do rádio sofreu desde sua implantação por Roquette-Pinto, quando, segundo ela, servia à reprodução dos significados que circulavam nos meios intelectuais brasileiros.

Para Vieira, a difusão do veículo por todas as classes sociais se deu através da popularização do rádio como tecnologia (bricolagem) e teve como objetivo o projeto educativo-cultural. A autora defende seu ponto de vista através de sucessivas citações que afirmam a mesma teoria, mas em nenhum momento contrapõe suas idéias e duvida de seu pressuposto. A programação pretendida por Roquette-Pinto nos primórdios da rádio carioca era elitista? Veio do povo a vontade de mudança na programação da rádio e, portanto, a chamada “popularização”? Desde o início da dissertação, pela vontade de relacionar o “rádio” às “sensibilidades”, a autora repete a teoria de “catequização” defendida por alguns teóricos em relação às “músicas eruditas, palestras com intelectuais, cotações da bolsa de valores e conferências científicas”. Para Michele Vieira, esta programação serviria de painel para a reprodução dos valores de uma classe de “atores sociais ligados às classes dominantes, que defendem os valores do status quo e que buscam influir ideologicamente na construção e preservação do consenso em torno das posições hegemônicas na sociedade”.

A predisposição da autora em defender o “gosto popular” acaba por tratar o veículo de forma evolucionista quando afirma que “a cultura em que cada indivíduo estava inserido foi responsável por dar forma e sentido aos usos que se fizeram do rádio como tecnologia... A hora do almoço já não era mais a mesma, ficar doente já não era tão enfadonho, as casas não eram mais tão silenciosas. Sua presença, sua proximidade com as pessoas, trazia para cada uma (sic) transformações de velhos hábitos. O rádio parecia dinamizar e florear certos momentos cotidianos”. Tal afirmação nos leva a refletir e comparar com teorias que, por exemplo, afirmam que a televisão foi responsável pela redução de filhos por casal. É presente no texto a construção de uma guerra entre elite e povo e descreve-se um conto de fadas equivalendo a vitória do “perfil popular”, ou o que ela chama de “função de entretenimento”, à criação das “sensações de prazer e de felicidade”.

No decorrer do texto é enfatizada a importância do veículo como tecnologia e da “presença constante das relações comerciais do rádio com os industriais e comerciantes desde a sua fundação”, entretanto esquece-se dessa relação com o mercado publicitário ao afirmar ingenuamente que: “O público, ao que parece, venceu a disputa. O rádio virou a voz do povo. Causou fascínio e a alegria de muitos com novidades como os jingles, as radionovelas, os programas de auditório”.

Apesar de afirmar que sua pesquisa pretende traçar as etapas e as especificidades do processo de implantação do rádio através da interpretação das fontes primárias sobre a trajetória dessa inserção, seria necessário distanciar-se ainda mais de seu objeto para enxergá-lo de forma mais ampla. Sinto falta da interpretação da força publicitária daquela época por trás das “cartas enviadas à Rádio Sociedade, muitas delas endereçadas diretamente a Roquette-Pinto, manifestando suas opiniões e suas sensações em relação ao que deveria ser o rádio no país”. A historiadora não consegue aqui fugir à tentação de atribuir a essas cartas o valor de verdade, de intenção e preferência genuína dos ouvintes: “Trava-se, portanto, uma disputa entre aqueles que preferiam a música popular e os que defendiam a permanência do perfil educativo-cultural, quando tocava apenas música erudita. O rádio será entendido aqui como mediador das sensações, dos gostos, e da impressão do público de pertencer, de forma íntima, àquele mundo transportado para o cotidiano”.

O uso de declaração de autores como Gramsci e Ferrareto, enfatiza que o rádio, até 1930, era “voltado para as elites”, mas deixa a desejar pela falta de contraponto e aprofundamento no “gosto popular” que todos querem saber qual é ou todos querem ensiná-lo (seja a elite ou as firmas patrocinadoras burguesas responsáveis pela, como ela mesma define, “estruturação do veículo e do nascimento do rádio como espetáculo, ou seja, do rádio com estrutura comercial”). O interesse que eu particularmente tenho na questão do “radioamadorismo” e contemporaneamente das “rádios piratas” como voz alternativa a essa “estrutura comercial”, que têm alcance maior do que as permitidas “rádio comunitárias”, não é suficiente para acreditar na ilusão de que os ouvintes teriam o real poder de interferir nas programações e adequá-las aos seus respectivos gostos. Penso que faltou à pesquisadora se aprofundar na “massa de manobra” por trás desse gosto e ilusão da “certeza de fazerem parte da vida daquele meio de comunicação”, que Vieira encontrou nos documentos consultados, como as cartas endereçadas à Rádio Sociedade.

4 comentários:

  1. Joyce, a sua resenha está bem pontual e sua posição está bem definida. Não sei como a Michele abordou a questão do gosto popular na dissertação, mas não concordo com sua crítica de que tenha tratado o rádio de forma evolucionista. Acredito que a intenção de Michele era não deixar que a dissertação caísse no determinismo tecnológico. Concordo com a visão de que cada sociedade se apropriou do rádio como bem quisesse, gerando sentidos diversos através do uso da tecnologia. É claro que estas apropriações acabam levando a determinados impactos no cotidiano. Podemos ver isso até hoje, com o surgimento de novas tecnologias. Mas, entendi sua preocupação no caso dela ter relativizado isso demais. Tanto que você lança, na resenha, aquela velha história de que “a televisão foi responsável pela redução de filhos por casal”.
    Outra coisa: afirmar que o rádio virou a voz do povo pode ser um pouco exagerado e até inocente como você mesmo disse. Contudo, não podemos negar que o rádio – querendo ou não – virou um veículo que atingiu (e ainda atinge) facilmente as massas, adquirindo um papel importante na comunicação entre as diversas classes.

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  2. Creio não ter muito a acrescentar a discussão. A análise da dissertação me parece bem fundada e ter bons argumentos. Como não li a dissertação, não tenho como como avaliar se as críticas são exageradas ou tocam apenas aspectos pontuais e não estruturais da dissertação.

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  3. Joice, vou compilar aqui os comentários sobre as suas duas resenhas. A análise do trabalho de Michele me pareceu mais cuidadosa, mais preocupada em exemplificar a que pontos suas críticas se dirigiam. Isso ajuda o leitor a se posicionar e embasa o que você está dizendo. Ainda assim, há críticas ao trabalho de Michele que se sustentam de forma frágil na sua argumentação, como a questão evolucionista na qual Melina tocou.

    Na análise do trabalho de Fernando Morais, achei as críticas pouco fundamentadas e adjetivadas demais (como, por exemplo, quando você classifica a visão do autor sobre determinado assunto como ”deslumbrada”). Acredito que os argumentos para embasá-las devam ser claros para você e bem construídos argumentativamente¬, mas esta clareza não é acessível para quem lê a resenha.

    No mais, acho que faltou relacionar os dois trabalhos ao seu e talvez trazer questões que você trabalha (ou pretende trabalhar) para dialogar com as limitações das dissertações analisadas.

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  4. Oi, pessoal. Como vocês já pontuaram, a análise da Joyce se preocupou em apontar questões importantes numa dissertação, que é a identificação do problema, da forma como o pesquisador se apropria dos autores e dialoga com eles. E no caso do meu trabalho, ela questionou também a metolologia de análise das fontes primárias, que são as cartas, e como eu interpretei isso. Mas o que eu vou me deter aqui é na análise e não no trabalho em si. Quando a gente for avaliar um trabalho, temos que tomar cuidado também para não sermos deterministas nas interpretações. Aqui a Joyce colocou que o trabalho se baseia na dicotomia entre popular e elitista. No entanto, o trabalho afirma que existe uma circularidade da cultura entre essas duas categorias, de que não existe uma forma fixa do que é popular e do que é erudito. Tanto que eu falo das trocas simbólicas entre as culturas. Também penso que a Joyce poderia ter dado mais ênfase na questão central do trabalho, que é a materialidade tecnológica do rádio, a qual baseia a discussão do que é elitista e popular. O que eu afirmo é que a intenção de Roquette-Pinto era popularizar o rádio como tecnologia e elitizar seus conteúdos. Não senti que houve o determinismo tecnológico, pois não afirmei que os conteúdos do rádio foram popularizados porque o povo começou a construir rádios. Eu deixo isso como hipótese, o que é legal da gente perceber também nos trabalhos. Se a pessoa afirma ou se ela apenas lança uma questão para um futuro trabalho. No mais, acolhi bem as críticas e já estou pensando sobre elas, pois a Joyce colocou para mim questões que eu vou rever no trabalho e perceber se a forma como eu construi os argumentos possibilitaram essa leitura do determinismo.

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