terça-feira, 10 de maio de 2011

Resenhas Layanna


(resenha 1)

Resenha da dissertação “As interfaces do jornalismo nacional e regional no Brasil: Roseana Sarney e o caso Lunus” – Pâmela Araújo Pinto, PPGCOM, 2010

Por Layanna Azevedo


O trabalho em questão visa a mostrar a existência de relação entre o centro e as margens da comunicação no Brasil, utilizando o jornalismo – mais especificamente, um estudo comparado entre os jornais  O Globo (RJ / de caráter nacional) e O Estado do Maranhão (MA / de caráter regional) sobre o escândalo político envolvendo a presidenciável de 2002, Roseana Sarney. A autora coloca o objeto em questão - o escândalo, que ficou conhecido como “caso Lunus” - para explicitar tensões entre o centro e as margens não só na comunicação, como também no campo político.


De acordo com os primeiros capítulos teóricos expostos pela autora, não concordo com o uso do conceito “coronelismo” para se compreender acontecimentos de finais do século XX e início do século XXI – considerando como referencial o ano de 2002, foco da pesquisa em questão. Claro que algumas das características que ficaram conhecidas como atitudes de “coronelistas”, como a própria troca de favores políticos, ainda existe na política: talvez se possa falar em um certo clientelismo, por exemplo, como é colocado na dissertação. No entanto, o termo “coronelismo” é historicamente datado. O mesmo ocorre com termos como “populismo”, por exemplo, que muitos insistem em aplicar aos dias de hoje – embora também se constitua em um conceito datado e não passível de transposição para a conjuntura atual. Na minha perspectiva,  utilizar o conceito de “coronelismo” no contexto contemporâneo acaba por gerar uma limitação de análise – e no caso da família Sarney no Maranhão,  se aproximaria  mais de uma metáfora do que de um uso conceitual preciso  -  embora na dissertação o uso do conceito seja bem fundamentado teoricamente, fica marcada aqui minha discordância pessoal em termos de filiação teórica. 


O trabalho coloca a existência de variados níveis de dependência econômica e política dos veículos, o que teria condicionado segmentações na mídia brasileira em blocos como “grande imprensa” e “pequena imprensa”. É bem referenciada na pesquisa  a necessidade de relativização dos conceitos de margem e centro ao se tratar do jornalismo,  argumentando que algumas características do regional são também verificadas no nacional – além do próprio centro poder assumir, por vezes,  a característica do que é considerado regional, invertendo suas posições. O trabalho demonstra exemplos  onde a inversão centro-periferia ocorreu, como a adesão do modelo norte-americano no jornalismo impresso dos anos 1950 e o fato de a rede Globo de Televisão recorrer ao grupo americano Time-Life.


Ao tratar de “grande” e “pequena” imprensa, o trabalho expõe que a primeira seria mais comprometida com leitores e anunciantes, enquanto a segunda estaria na esfera do jornalismo regional e seria um instrumento político na mão de oligarquias – as quais a autora explicita historicamente, situando as concessões realizadas no pós-64 e, principalmente, as concessões do período da redemocratização (pós-1985), onde o legislativo passou a participar das concessões e beneficiar políticos oriundos de oligarquias regionais, como Antônio Carlos Magalhães (ACM – Bahia) e o próprio Sarney.  A autora então trabalha com o conceito de “coronelismo eletrônico”, que seria uma prática antidemocrática que reforça o vínculo das emissoras de rádio e televisão com as oligarquias políticas locais e regionais, sendo uma prática que impediria a efetiva democratização da comunicação no país. Apesar de bem referenciado o conceito de “coronelismo eletrônico” na dissertação, discordo de seu uso, pelos mesmos motivos acima expostos ao tratar do termo “coronelismo” em si. Pelo que o trabalho expõe, vários autores trabalham com tal conceito e sua aplicação na pesquisa  é fundamentada; no entanto, por me filiar à corrente contrária a seu uso, creio que este deva ser relativizado. A possibilidade de uma efetiva democratização da comunicação no país possui outros obstáculos que vão muito além da existência de um “coronelismo eletrônico”. Se a própria mídia nacional, ou a “grande imprensa” como é mencionada na pesquisa, se coloca no lugar de legítimo representante do público, como haveria democratização, independentemente da existência de oligarquias regionais? Se os diferentes tipos de mídia ora disputam e ora se complementam,  como a autora bem coloca, o problema me parece mais complexo do que Bucci (2008), citado na pesquisa, expressa. A problemática, na minha concepção, é maior do que  “programação de rádio e TV como jagunça virtual de coronéis encastelados em concessões obtidas de favores dos ocupantes do Executivo” – o que não quer dizer que este tipo de prática não exista de fato; o que também não quer dizer, como bem expõe a autora, que não haja laços entre os Marinho e o sistema Mirante de Comunicação, do senador José Sarney. Também concordo com a questão que a  autora levanta,  de que tanto os gestores  nacionais como regionais podem acabar por fazer  usos de concessões públicas para atingir fins privados em detrimento do interesse público. No entanto, a questão me parece mais complexa do que a alcunha "coronelismo eletrõnico" sugere. Minha implicância, que talvez seja até errônea e exagerada, é no uso de um anacrônico “coronelismo” que tenderia a sintetizar análises, e conceitos não podem, em minha opinião, serem tratados de maneira tão elástica. Outro ponto é que este tipo de posicionamento acaba por sobrepor muito a empresa ao jornalista, seja considerando tanto o âmbito nacional como o regional. 


Entrando no capítulo final do trabalho, o da pesquisa do enquadramento em O Globo e o Estado do Maranhão sobre o caso Lunus, a autora divide 4 tipos de enquadramento: policial, eleitoral, de governo e geopolítico. O enquadramento policial trata do crime em si, no caso do Globo e de um golpe político contra Roseana, no caso d’O Estado do Maranhão; o eleitoral explorou a mudança no cenário político ás vésperas da eleição; o de governo abordou os impactos do escândalo na governabilidade e o geopolítico relacionava o local ao nacional, no caso do Globo trazendo a realidade do Maranhão para o âmbito nacional e, no Estado do Maranhão, tentando construir uma imagem positiva de Roseana na crise. A pesquisa da autora explicita sua tese de conflitos e tensões entre o jornalismo nacional e o regional, já que os diferentes enquadramentos enfatizam aspectos diferentes da realidade como, por exemplo, o fato d’ O Globo ter exposto temas omitidos pelo jornal maranhense, como a imagem do dinheiro apreendido pela Polícia Federal na operação.



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(resenha 2)


Resenha da dissertação “Tribunais Paralelos: imprensa e poder judiciário no caso Daniella Perez”, de Priscila Seifert, PPGCOM, 2004.

Por Layanna Azevedo


O objeto de estudo da dissertação é a relação estabelecida entre imprensa e judiciário, tomando como estudo o caso do assassinato da atriz da Globo Daniella Perez. A atriz, filha de Gloria Perez, autora de diversas novelas da mesma emissora, foi assassinada pelo também ator Guilherme de Pádua e sua mulher, Paula Thomaz. A autora faz um estudo de caso do jornal O Globo na cobertura do supracitado assassinato, que ocorrera em 28 de dezembro de 1992.


Logo no início o trabalho deixa clara a disputa entre as duas instituições, com o Judiciário acusando a Imprensa de pegar para si atribuições que lhe foram confiadas de forma legítima. Já a imprensa alega o direito do público de ser informado, trabalhando com a justificativa de atuar onde a Justiça se encontra em falta. No entanto, a imprensa julga e condena, assumindo para si o papel da punição – sem ter os critérios rigorosos de investigação nos quais a Justiça se pauta. A autora coloca então que as duas instituições operam com regimes diferentes de produção de verdades: a do Judiciário é lenta, complexa, processual; a Imprensa produz verdades imediatamente, até pela própria característica de circulação diária do noticiário. O Globo condenou Guilherme de Pádua e Paula Thomaz de imediato, enquanto o Judiciário só o fez após 5 anos, seguindo as regras constitucionais do processo. A autora contrapõe nos capítulos seguintes a construção da verdade jurídica (comparando modelos jurídicos, como o norte-americano e o brasileiro) à construção da verdade jornalística (em uma discussão sobre o enquadramento das notícias e o lugar de autoridade no qual o jornalista se coloca).


A autora então parte para uma análise dos discursos produzidos pela Justiça e pela Imprensa acerca do assassinato de Daniella, mais uma vez contrapondo a questão processual de temporalidade longa do discurso Jurídico versus o imediatismo do discurso jornalístico, que também se propõe a tornar inteligível ao público a linguagem jurídica que é, a priori, para um grupo restrito e com termos técnicos de difícil compreensão. O discurso do jornalismo é simples e claro, “mastigando o juridiquês” para o público leigo. Neste ponto, é possível traçar uma comparação também com a  relação entre jornalismo e política, onde a imprensa se propõe a trazer para o público a compreensão da política, que possui linguagem e procedimentos próprios não assimiláveis diretamente pelo público leigo. O jornalismo então “mastiga o politiquês” para seu leitor.
O trabalho apresenta a seguir uma contextualização histórica do ano de 1992 – o crime coincide com o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor. A partir de então, descreve os envolvidos no crime – quem era Daniella Perez, em que novela atuava (“De Corpo e Alma”); quem era Guilherme de Pádua, o assassino, seu par romântico na referida novela. Apresenta também uma narrativa sobre como ocorreu o crime e como as suspeita chegaram a Guilherme e à sua esposa, que estivera presente no ato. A autora argumenta que os jornais começaram a traçar o perfil monstruoso e psicológico de Guilherme de Pádua e sua esposa Paula Thomaz, em contraposição à personalidade bondosa de Daniella Perez. O trabalho então apresenta a ação que a Justiça adota ao tomar conhecimento de um crime, das investigações ao inquérito e à denúncia, apresentando os artigos referentes do Código Penal.


Partindo pra análise da cobertura jornalística, a pesquisa aponta a sua grande intensidade à époica imediata do crime. Dividia a primeira página com o processo de impeachment do presidente, somando uma média de 18 matérias por dia. Segundo a autora, a cobertura foi diminuindo gradativamente a partir de março de 1993. A partir daí, o trabalho mais uma vez coloca o ritmo  em que operam Justiça e Imprensa: esta última concentrou suas notícias no imediato, onde ainda não havia processo judicial, quando as investigações ainda estava sendo feitas. No início do processo criminal, a cobertura ainda foi intensa, mas depois foi perdendo força. Enquanto o processo judicial se desenrolava, o crime deixara de ser notícia. A autora então expõe seu argumento: não havia mais no processo dados originais que preenchessem os critérios de noticiabilidade do jornalismo. Ou seja, a cobertura foi intensa, cronologicamente falando,  nas datas próximas à ocorrência do crime. Com a temporalidade que a Imprensa opera, ela não tem como aguardar o julgamento; ela condena moralmente, acusa de imediato, se pauta no ato criminoso em si e cria uma narrativa melodramática para o público. A hipótese da autora é que, para conseguir tornar inteligível para um público diversificado acontecimentos como o assassinato de Daniella Perez, os jornalistas se valem da narrativa. Neste caso, como já citado anteriormente, apelando para o caráter monstruoso tanto da situação quanto do acusado. Como narrativa, as notícias são apresentadas como estórias – para serem mais compreendidas pelos leitores. A autora se pauta no estudo de Michael Schudson para afirmar que a linha entre informação e narrativa é tênue. O jornalismo recorre à lógica da narrativa, ainda que camuflada por práticas, normas e convenções jornalísticas. Os jornalistas interpretam o mundo sem aparentar distância da objetividade e se valem da narrativa para se constituírem como intérpretes autorizados da realidade. A pesquisa parte então para a análise das matérias feitas pelo jornal O Globo, reproduzindo-as e analisando-as, e mostra como o jornal explicou a morte da atriz Daniella Perez sem se preocupar com a legitimidade e imparcialidade de suas fontes, através de uma narrativa moralizante pautadas nos valores compartilhados da sociedade – o que já auto-legitimaria o seu discurso. O trabalho não cai na ingenuidade de uma crítica romântica à imprensa, e mostra detalhadamente, através do exemplo Daniella Perez, como o jornalismo opera com o sistema de produção de verdade.

4 comentários:

  1. “As interfaces do jornalismo nacional e regional no Brasil: Roseana Sarney e o caso Lunus” -

    Layanna, concordo com seu toque relacionado ao coronelismo. Não sei como a Pamela utilizou os termos “coronelismo” e “coronelismo eletrônico” durante a dissertação, talvez o uso de “clientelismo” seja mais apropriado para os dias atuais. Porém, acabou que eu interpretei o uso das expressões levando para um lado metafórico, jornalístico mesmo.
    Acredito que você se preocupou demais com isso – com toda a razão, devido a sua formação -, e deixou um pouco de lado a contribuição dada pela pesquisa da Pamela. Pelo que entendi, o estudo aborda as diferenças editoriais entre regiões e quais relações de poder estão implícitas nisso. Já existem discrepâncias bizarras entre o “jornalismo de capital” e o “jornalismo de interior”, comparando cidades localizadas no mesmo estado. Imagine entre estados diferentes...

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  2. “Tribunais Paralelos: imprensa e poder judiciário no caso Daniella Perez” –

    Layanna, a sua resenha ficou muito legal. Deu para entender o contexto facilmente. O trabalho deve ter contribuído muito para o entendimento da disputa entre o Poder Judiciário e os veículos de Comunicação. Esta questão da imprensa julgar e condenar, antes mesmo do veredicto, sem ter os critérios de investigação nos quais a Justiça se pauta, sempre traz resultados desastrosos. Em alguns casos pode ser irreversível, como ocorrido com a Escola Base, em São Paulo.
    A dissertação foi defendida em 2004, mas parece que a tensão entre imprensa e Judiciário aumenta a cada ano que passa. Somente uma coisa tem me chamado muito a atenção: os envolvidos nos julgamentos começaram a utilizar mais a mídia para divulgar cada lado da história. Exemplo mais recente: caso Isabella Nardoni. Vocês se lembram das várias entrevistas do promotor Francisco Cembranelli que virou pop star e herói de uma hora para a outra? E dos avós da menina? Dos dois acusados? O enquadramento dado a cada um foi totalmente diferente. Durante as matérias já dava para ver qual era a posição da imprensa.
    Fiquei com uma curiosidade: para qual lado a autora levou a conclusão? Ela achou que a discussão foi satisfatória?

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  3. As duas resenhas foram bem apresentadas, o que permite sabermos logo de início sobre o que tratam as dissertações. No caso da primeira, a da Pamela, o foco na questão do “coronelismo” se sobrepôs a outras questões que a dissertação devia conter e poderiam ter sido mais exploradas, como por exemplo, os argumentos da autora.

    Já no caso da dissertação de Priscilla Seifert, tanto a temática, quanto a abordagem da autora são bem exploradas. A resenha apresenta questões importantes sobre a narrativa e possibilita uma compreensão acerca do que se encontra presente na dissertação e do embate entre jornalismo e imprensa. Talvez por ser uma temática mais conhecida, mais presente no nosso cotidiano, o que não acontece no caso da comparação entre “O Globo” e “O Estado do Maranhão”. A dissertação, e por conseqüência, a resenha sobre o caso Daniella Perez é mais familiar e, portanto, mais simples para entender e refletir sobre o assunto.

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  4. Melina, ótimo paralelo. Fiquei pensando exatamente no caso dos Nardoni quando li a dissertação da Priscilla. Antes mesmo da polícia fazer o trabalho investigativo e a própria reconstituição do crime, os jornais já apontavam os Nardoni como culpados e evidenciavam o caráter monstruoso do casal. Aliás, alguns juristas criticaram MUITO a reconstituição do crime feita pela polícia de SP, inclusive argumentando que a reconstituição foi influenciada pela mídia e feita de maneira "porca": em horário diferente, sem considerar aspectos básicos (que eu confesso, não lembro agora).

    A Priscilla conclui dizendo que, no fim das contas, tanto imprensa quanto judiciário tiveram um julgamento próximo e condenaram Guilherme de Pádua, mas cada uma por seus métodos: o "oficioso", da imprensa e o "oficial", do judiciário. O primeiro por uma condenação moral e o segundo por uma condenação concreta (em termos de liberdade). Ela explicita a disputa entre as duas instituições e as coloca como cada uma tendo um sistema próprio de produção de verdade.

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