domingo, 8 de maio de 2011

“Gente de toda parte foi ver o ex-metalúrgico virar presidente da República” A narrativa da posse de Lula na Folha de S. Paulo e em O Globo



Autora Ariane Diniz Holzbach/ Ano: 2008(Dissertação – UFF)

A pesquisadora parte de uma questão pontual, a cobertura dos rituais políticos, para discutir a complexa relação entre mídia e política no Brasil. Com a análise das narrativas de O Globo e da Folha de S. Paulo sobre a primeira posse do presidente Lula, em 2003, a autora trás como questão central a forma como os veículos midiáticos constroem uma mediação da política com o público leitor/eleitor e estabelecem sentidos sobre a democracia.
A imprensa é colocada em um local privilegiado na dissertação, sendo apontada como o elo entre o ritual de posse e sua significação, a democracia e o público. Indício apontado na própria estrutura do texto que tem a temática dos rituais no primeiro capítulo, seguida por uma reflexão sobre a imprensa e seu local de mediadora de poder na contemporaneidade. Por fim, parte para uma análise envolvendo os dois elementos anteriores em um corpus com potencialidade para mostrar a heterogeneidade da mídia brasileira.
Sua hipótese central é de que cada jornal ofereceu ao seu público uma leitura própria do ritual de posse, obedecendo sua trajetória e formação no cenário midiático brasileiro. O Globo foi apontado como sensacionalista, analisando a posse por um viés personalista, emotivo, enquanto a Folha ocupou um local mais elitista, compondo textos informativos e analíticos.
A comprovação desta hipótese envolveu um mapeamento das matérias das edições de 02 de janeiro nos dois jornais para com a posse presidencial, observando a narrativa textual e imagética que ambos esboçaram para com o tema. Buscou-se também o enquadramento recebido, a partir de três categorias (pertinentes) apontadas como os principais elementos constitutivos da democracia representativa: o mandato representativo, a alternância de poder e o caráter popular. A comparação destes recortes nos dois jornais expôs que mesmo possuindo características próximas (como o público segmentado nas classes A e B, a expressiva tiragem na região Sudeste) mostrou que é possível usar a tutela do jornalismo para expor perspectivas particulares de cada grupo de comunicação.
Ao tomar os veículos de comunicação como parte integrante para a eficácia do ritual de posse, caberia uma verificação mais acurada sobre a representatividade de ambos os jornais no cenário midiático nacional. O Globo, por exemplo, não chega a todas as unidades da federação, em seu formato impresso, desde 2002 não é vendido em bancas do Maranhão, por exemplo. Partindo do pressuposto que a mídia, em especial o jornal, consolida o sentimento de nação (conforme Benedict Anderson já havia preconizado) seria relevante verificar sua penetração em outros lugares. Outra sugestão diz respeito a um possível mapeamento da reprodução deste conteúdo sobre a posse publicado nos veículos que assinam o conteúdo dos dois jornais por meio das agências Globo e Folha.
Há um diálogo entre esta pesquisa e a minha proposta para tese – que amplia alguns questionamentos feitos na dissertação. A) diz respeito a heterogeneidade da mídia brasileira, que mesmo diante de momentos como os rituais, evidencia a notícia de acordo com seus pressupostos/interesses. Isso pode ser ampliado para além destes momentos de liminaridade, conforme minha pesquisa inicial; B) o relevo das questões da cultura interna de valores do veículo e o impacto na produção da notícia. O que é potencializado quando se efetiva estudos comparativos; C) Compartilho com a autora a postura crítica em relação ao poder de moldagem que a mídia tem diante do cotidiano, bem como da necessidade de se entender seu funcionamento.

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