domingo, 8 de maio de 2011

Resenha da dissertação “As interfaces do jornalismo nacional e regional no Brasil: Roseana Sarney e o caso Lunus” – Pâmela Araújo Pinto, PPGCOM, 2010.

(Não vou postar as duas resenhas seguidas como as colegas abaixo fizeram, pois ainda não terminei a segunda).

Resenha da dissertação “As interfaces do jornalismo nacional e regional no Brasil: Roseana Sarney e o caso Lunus” – Pâmela Araújo Pinto, PPGCOM, 2010
Por Layanna Azevedo


O trabalho em questão visa a mostrar a existência de relação entre o centro e as margens da comunicação no Brasil, utilizando o jornalismo – mais especificamente, um estudo comparado entre os jornais  O Globo (RJ / de caráter nacional) e O Estado do Maranhão (MA / de caráter regional) sobre o escândalo político envolvendo a presidenciável de 2002, Roseana Sarney. A autora coloca o objeto em questão - o escândalo, que ficou conhecido como “caso Lunus” - para explicitar tensões entre o centro e as margens não só na comunicação, como também no campo político.

De acordo com os primeiros capítulos teóricos expostos pela autora, não concordo com o uso do conceito “coronelismo” para se compreender acontecimentos de finais do século XX e início do século XXI – considerando como referencial o ano de 2002, foco da pesquisa em questão. Claro que algumas das características que ficaram conhecidas como atitudes de “coronelistas”, como a própria troca de favores políticos, ainda existe na política: talvez se possa falar em um certo clientelismo, por exemplo, como é colocado na dissertação. No entanto, o termo “coronelismo” é historicamente datado. O mesmo ocorre com termos como “populismo”, por exemplo, que muitos insistem em aplicar aos dias de hoje – embora também se constitua em um conceito datado e não passível de transposição para a conjuntura atual. Na minha perspectiva,  utilizar o conceito de “coronelismo” no contexto contemporâneo acaba por gerar uma limitação de análise – e no caso da família Sarney no Maranhão,  se aproximaria  mais de uma metáfora do que de um uso conceitual preciso  -  embora na dissertação o uso do conceito seja bem fundamentado teoricamente, fica marcada aqui minha discordância pessoal em termos de filiação teórica. 

O trabalho coloca a existência de variados níveis de dependência econômica e política dos veículos, o que teria condicionado segmentações na mídia brasileira em blocos como “grande imprensa” e “pequena imprensa”. É bem referenciada na pesquisa  a necessidade de relativização dos conceitos de margem e centro ao se tratar do jornalismo,  argumentando que algumas características do regional são também verificadas no nacional – além do próprio centro poder assumir, por vezes,  a característica do que é considerado regional, invertendo suas posições. O trabalho demonstra exemplos  onde a inversão centro-periferia ocorreu, como a adesão do modelo norte-americano no jornalismo impresso dos anos 1950 e o fato de a rede Globo de Televisão recorrer ao grupo americano Time-Life.

Ao tratar de “grande” e “pequena” imprensa, o trabalho expõe que a primeira seria mais comprometida com leitores e anunciantes, enquanto a segunda estaria na esfera do jornalismo regional e seria um instrumento político na mão de oligarquias – as quais a autora explicita historicamente, situando as concessões realizadas no pós-64 e, principalmente, as concessões do período da redemocratização (pós-1985), onde o legislativo passou a participar das concessões e beneficiar políticos oriundos de oligarquias regionais, como Antônio Carlos Magalhães (ACM – Bahia) e o próprio Sarney.  A autora então trabalha com o conceito de “coronelismo eletrônico”, que seria uma prática antidemocrática que reforça o vínculo das emissoras de rádio e televisão com as oligarquias políticas locais e regionais, sendo uma prática que impediria a efetiva democratização da comunicação no país. Apesar de bem referenciado o conceito de “coronelismo eletrônico” na dissertação, discordo de seu uso, pelos mesmos motivos acima expostos ao tratar do termo “coronelismo” em si. Pelo que o trabalho expõe, vários autores trabalham com tal conceito e sua aplicação na pesquisa  é fundamentada; no entanto, por me filiar à corrente contrária a seu uso, creio que este deva ser relativizado. A possibilidade de uma efetiva democratização da comunicação no país possui outros obstáculos que vão muito além da existência de um “coronelismo eletrônico”. Se a própria mídia nacional, ou a “grande imprensa” como é mencionada na pesquisa, se coloca no lugar de legítimo representante do público, como haveria democratização, independentemente da existência de oligarquias regionais? Se os diferentes tipos de mídia ora disputam e ora se complementam,  como a autora bem coloca, o problema me parece mais complexo do que Bucci (2008), citado na pesquisa, expressa. A problemática, na minha concepção, é maior do que  “programação de rádio e TV como jagunça virtual de coronéis encastelados em concessões obtidas de favores dos ocupantes do Executivo” – o que não quer dizer que este tipo de prática não exista de fato; o que também não quer dizer, como bem expõe a autora, que não haja laços entre os Marinho e o sistema Mirante de Comunicação, do senador José Sarney. Também concordo com a questão que a  autora levanta,  de que tanto os gestores  nacionais como regionais podem acabar por fazer  usos de concessões públicas para atingir fins privados em detrimento do interesse público. No entanto, a questão me parece mais complexa do que a alcunha "coronelismo eletrõnico" sugere. Minha implicância, que talvez seja até errônea e exagerada, é no uso de um anacrônico “coronelismo” que tenderia a sintetizar análises, e conceitos não podem, em minha opinião, serem tratados de maneira tão elástica. Outro ponto é que este tipo de posicionamento acaba por sobrepor muito a empresa ao jornalista, seja considerando tanto o âmbito nacional como o regional.
Entrando no capítulo final do trabalho, o da pesquisa do enquadramento em O Globo e o Estado do Maranhão sobre o caso Lunus, a autora divide 4 tipos de enquadramento: policial, eleitoral, de governo e geopolítico. O enquadramento policial trata do crime em si, no caso do Globo e de um golpe político contra Roseana, no caso d’O Estado do Maranhão; o eleitoral explorou a mudança no cenário político ás vésperas da eleição; o de governo abordou os impactos do escândalo na governabilidade e o geopolítico relacionava o local ao nacional, no caso do Globo trazendo a realidade do Maranhão para o âmbito nacional e, no Estado do Maranhão, tentando construir uma imagem positiva de Roseana na crise. A pesquisa da autora explicita sua tese de conflitos e tensões entre o jornalismo nacional e o regional, já que os diferentes enquadramentos enfatizam aspectos diferentes da realidade como, por exemplo, o fato d’ O Globo ter exposto temas omitidos pelo jornal maranhense, como a imagem do dinheiro apreendido pela Polícia Federal na operação.

Um comentário:

  1. Pamela querida,
    não fique triste, adorei seu trabalho! Gostei bastante da dissertação e me foi muito útil para ver como uma pesquisa na área de comunicação funciona - "como se mete a mão na massa", rs. Meu problema é que minha cabeça de historiadora não aceita o conceito de coronelismo hoje!

    Mas parabéns pelo trabalho, gostei muito da dissertação e vai me ajudar muito a pensar a estrutura da minha dissertação também!

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