Ano: 2010
Por Krystal Cortez Luz Urbano
"Num mundo em que as opções de mídia estão em crescente expansão, haverá brigas por espectadores cujos gostos e preferências serão inéditos para a mídia corporativa. As pessoas mais atentas da indústria já sabem disso: algumas estão tremendo, outras estão lutando para renegociar suas relações com consumidores. No fim, os produtores precisam dos fãs tanto quanto os fãs precisam deles" (Jenkins, 2008: 226)
Essa dissertação tem como eixo principal de análise a produção audiovisual independente, denominada como fan films, que consiste no processo de criação de novas narrativas e histórias oriundas da grande indústria, como por exemplo, Star Wars e The Lord of the Rings, franquias conhecidas internacionalmente e que são privilegiadas por diversos fãs no processo de produção independente de filmes. Essa prática colaborativa feita por fãs e direcionada para outros fãs vem preencher lacunas deixadas por essas narrativas consideradas “originais” com também visa mostrar um olhar particular desses filmes, quando estes não foram bem exploradas nas grandes produções. A análise das obras escolhidas tem como referência os Estudos Culturais Britânicos e se distancia dos estudos da Escola de Frankfurt.
O autor ressalta a necessidade de se categorizar essa nova forma de produção audiovisual, uma vez que o mesmo entende que há uma dificuldade de definição desse tipo de produção e daí a relevância e pertinência da temática em questão. Compreende-se que o autor demonstra logo de início, em seu título, que a hipótese central do trabalho é demonstrar que o advento dos fan films representa o surgimento de um novo tipo de tendência no cinema, que atravessa o estágio caseiro, vindo a culminar no surgimento de um cinema especializado, uma vez que é feito por “especialistas” (os fãs) nos temas das grandes produções e delas retiram elementos para suas produções independentes.
Dando continuidade a análise dessa dissertação, pode se dizer, à luz do autor do trabalho, que os fan films são resultado do trabalho de uma mão de obra especializada e voltados para espectadores também especializados. A prática colaborativa dos fãs de obras cinematográficas é um espaço de desenvolvimento de tendências, talentos e profissionais e esse cinema especializado pode indicar para novas possibilidades para a indústria alterar sua própria produção, para ampliar e conquistar seu público. Assim como o fã tem muito que aprender com a indústria, ela mesma tem muito que tirar dele.
Contudo, ao mesmo tempo que as funções que envolvem a prática do fan film funcionam como laboratório para jovens que querem trabalhar com cinema, o produto cultural em questão ocupa um lugar de tendência dentro do cenário da produção audiovisual contemporânea. Entretanto, entende-se que a produção de fan films é de interesse do mercado audiovisual e porta de entrada para o fã/produtor atuar numa grande produtora.
Ainda se observou os conceitos utilizados ao longo da dissertação que serviram para ancorar o argumento do autor e que contribuem para a desmistificação da idéia de fã como sujeito alienado e isolado. A noção de fã, privilegiada na primeira parte do trabalho também serve para situar o leitor de forma que se entenda como a idéia de fã veio se alterando ao longo do tempo (passando de passivo a ativo), principalmente, através do desenvolvimento de aparatos técnicos. Para tal intento, Curi utiliza as contribuições de alguns autores sobre o tema como Michel de Certeau e Henry Jenkins. Todavia, não se aprofunda na questão tecnológica, algo importante quando se pretende pensar em uma das formas de expressão da cultura de fãs, neste caso, os fan films. Neste sentido, uma revisão bibliográfica seria pertinente, pois se compreende que o acesso aos meios produtivos modernos abre o espaço para novas formas de produção e colaboração que não seria possível sem a presença desses aparatos.
Contudo, também se observou a contribuição do trabalho no esforço em diferenciar os termos “aficcionado” (considerado pejorativo) e “fã”, demonstrando assim, conhecimento e esforço de pesquisa, e ainda, pertinência na diferenciação, já que poucos estudos sobre fãs trazem tais observações. No final da primeira parte, a posição de destaque que o fã/produtor atinge é relevante, uma vez que essa nova posição gera distinção do agente produtor dentre os outros fãs. Autores como Bourdieu, Thornton e Fiske foram utilizados para explicar a relação entre capital cultural e fãs.
O trabalho ainda oferece outra contribuição interessante quando problematiza a questão dos direitos autorais dos artefatos culturais em questão, os filmes, que são produzidos por grandes companhias e são reapropriados pelos fãs que constroem outras narrativas e dão continuidade às sagas por conta própria, de forma independente. Essa tensão existente entre indústria e fãs é abordada com destreza no trabalho e se aproxima do diálogo proposto com o assunto tratado em meu projeto de pesquisa sobre fansubs. A prática fansubber também carrega as pressões da indústria quanto à re-significação que ocorre com o processo que envolve a legendagem e tradução das animações japonesas.
Contudo, nota-se que alguns conceitos poderiam ter sido abordados, pois contribuiriam para a reflexão em torno do fenômeno dos fan films, como por exemplo, o conceito antropológico da dádiva, observado pelo antropólogo Marcel Mauss na obra Ensaio sobre a dádiva (1950), já que a distribuição dos fan films ocorre de forma independente e gratuita, feita de fãs para fãs, como também no caso da prática fansubber. Outra questão que carece de aprofundamento está localizada no universo dos fan films brasileiros, já que o trabalho aponta para uma tendência em exportar tais produções independentes, sendo necessário assim, problematizar melhor a questão da legendagem e tradução na ocasião dessas exportações. Portanto, o trabalho dialoga diretamente com várias questões propostas em meu projeto de dissertação sobre prática colaborativa de fãs, neste caso, de animações japonesas, os fansubbers, uma vez que trata de um fenômeno de produção independente que encerra um grande potencial na contemporaneidade e demonstra como os fãs podem ser tornar agentes produtores dos seus artefatos culturais favoritos.
IRC E ICQ: UMA ANÁLISE SÓCIO-COMUNICATIVA DAS PLATAFORMAS DE COMUNICAÇÃO ON-LINE
Autora: Flaviana Rangel Pesset Gonzaga
Ano: 2004
Por Krystal Cortez Luz Urbano
Essa pesquisa trata prioritariamente de abordar a respeito das interações sociais que ocorrem nas plataformas on-line do IRC e do ICQ. A autora ancora seu argumento a partir da hipótese central de que nem toda agregação no ciberespaço dá origem a uma comunidade virtual, assim como as relações sociais estabelecidas nesses espaços se configuram em novas formas de interação (on-line) onde a necessidade do vínculo comunitário não é preponderante, como nas relações face-a-face.
A pesquisa está dividida em duas fases. A primeira versa sobre os aspectos históricos e teóricos que envolvem a comunicação mediada por computadores, e a segunda fase aborda exclusivamente a dinâmica de sociabilidade que se estabelece nos ambientes sociais e virtuais do IRC e do ICQ.
O primeiro capítulo do trabalho, historiciza o surgimento dos computadores e as possibilidades que o meio encerra (CASTELLS). Numa segunda fase, a autora aborda os conceitos de hipertexto e interface gráfica (NELSON; BUSH E JOHNSON), tendo em vista a natureza dos seus objetos, as plataformas IRC e ICQ, que possuem uma interface gráfica atrativa e que dá suporte ao processo comunicacional interativo proposto na idéia das duas plataformas. Já o segundo capítulo é dedicado exclusivamente ao debate sobre os conceitos de comunidades virtuais, identidade e interação virtual, a partir das tipologias encontradas nas obras de Tönnies, Reinghold, Donath, Turkle e Reid.
No terceiro capítulo é feita uma descrição das interfaces gráficas do IRC e do ICQ visando mostrar suas estruturas funcionais, através de uma abordagem didática e interpretativa. A autora se vale da demonstração através da utilização de figuras de vários dispositivos gráficos de ambas as plataformas tendo em vista exemplificar como os aspectos gráficos são preponderantes para o esforço de interação e dinâmicas comunicativas utilizadas pelos usuários dessas ferramentas. Já no quarto capítulo, o esforço redacional da autora demonstra uma tentativa em aprofundar a análise a respeito das trocas simbólicas que se estabelece no MIRC, através de trechos de conversas retirados dos canais Ajuda, Sexo e Barra.
Em um contexto geral, percebe-se que a pesquisa aborda noções importantes do universo da cibercultura, da interatividade proporcionada pela CMC e das plataformas de comunicação on-line, entretanto, não há uma reflexão mais aprofundada sobre a questão das hierarquias existentes, principalmente no universo do MIRC, de forma que fique claro que ali residem relações de poder latentes e que as comunidades virtuais são extensões das práticas sócio comunicativas do cotidiano. Além disso, a pesquisa carece de aprofundamento quanto à questão da ideologia da Rede Brasnet, tendo em vista que a pesquisadora não obteve sucesso na abordagem junto aos sujeitos sociais que moderam, participam e interagem nos canais Ajuda, Sexo e Barra. Como o MIRC e o ICQ são lugares de formação de reputação on-line, assim como a autora procura demonstrar, a participação mais efetiva da mesma junto aos canais escolhidos e junto aos sujeitos que deles participam poderia revelar respostas mais significativas para compreender o fenômeno em questão.
Outra consideração que merece destaque nessa análise diz respeito à hipótese central que norteia todo o trabalho. Entende-se que em alguns casos, um sentimento de pertença é gerado nos canais que compõem o MIRC, e que alguns saberes e interesses em comum por parte dos usuários são fatores importantes para esse sentimento emergir. Geralmente, esse sentimento de pertença já preexiste no meio off-line e migra para o on-line, como no caso dos canais direcionados à cultura dos seriados animados japoneses. Dessa forma, a ligação afetiva que se estabelece com os produtos culturais nipônicos (dentre outros produtos e assuntos das mais variadas vertentes) é fator preponderante para que o vínculo comunitário ocorra, assim como no caso do Canal Barra (canal da localidade da Barra da Tijuca) um dos casos analisados na dissertação, que não traz para o debate as questões sobre os saberes e interesses que geram a noção de pertencimento da comunidade virtual em questão. Ou seja, acredita-se que esse vínculo comunitário possa existir e, para emergir, depende, além de outros fatores, da natureza dos canais disponíveis no MIRC.

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ResponderExcluirKrystal eu também gostei da resenha, deu um panorama da pesquisa.Eu não utilizo ha muitos naos o MIRC e há mais tempo ainda o ICQ, e fiquei supresa ao saber por meio da sua pesquisa que ainda são suportes utilizados, e mais, que são lugares para consolidação de muitas comunidades de temas específicos. Concordo com você, mesmo sem ter lido, que as questões de pertencimento dependem de partilha de visões, atividades e identidade.
ResponderExcluirKrystal, sua resenha está bem explicativa e fácil de entender.
ResponderExcluirPelo que entendi o objetivo do autor é apresentar os fanfilms como uma nova “categoria” cinematográfica, sendo um tipo de produção que não é nem caseira nem “hollywoodiana”. A primeira pergunta que me fiz foi: “qual seria o lugar desse tipo de tendência dentre as categorias já existentes?”. Além disso, não sei se entendi tudo errado, mas parece que o autor preferiu deixar a questão da distribuição desses fanfilms para outro momento. Por isso, o caso das trocas realizadas entre fãs não foi tão aprofundada como você mesmo disse. Assim, creio que a análise da dádiva não seria tão bem discutida na dissertação, caso fosse mencionada.
O que acho mais legal é que seu projeto pode dar continuidade a esta pesquisa, mesmo focando em outro objeto. Sua proposta pretende apresentar questões relevantes sobre a prática fansubber e pode fechar lacunas deixadas pelo trabalho dele. Como você mesmo disse, Curi não se aprofundou na prática dos fanfilms nacionais e em sua distribuição – independente. Nem comentou muito sobre as diferenças entre a apropriação destes conteúdos pelos canais de televisão e pelos fãs em comunidades virtuais. Ele pode ter achado melhor apresentar estas questões iniciais para que, num momento futuro, outros pesquisadores se aprofundassem mais nisso.
Sabe, tipo o Neo, em Matrix: “Para onde vamos daqui...É uma escolha que deixo para você”...
A resenha sobre o trabalho de Pedro Curi está bem construída e nos permite compreender o básico sobre seu estudo acerca dos fan films. Aponta para aspectos importantes sobre o sistema colaborativo, a relação com as majors do cinema e, inclusive, a estratégia de tornar os fan films uma “porta de entrada” para o cinema profissional.
ResponderExcluirNo caso da resenha sobre a dissertação de Flaviana Gonzaga também foi possível uma compreensão imediata sobre o trabalho e suas propostas. A resenha apresenta aspectos interessantes sobre a identificação, as trocas simbólicas e os laços que se estabelecem entre os participantes das redes. Um trabalho apresentado em 2004 e que traz informações que podem ser desdobradas como contribuições para pensar os dias de hoje e as redes sociais mais complexas que se desenvolveram na Internet.
As dissertações resenhadas possuem uma grande relação com o objeto e questões do seu projeto; demostrando uma boa escolha. Tais pontos em comum já são indicados no início de cada resenha: temas como a prática colaborativa, a produções de fãs, as especificidades dos canais que mediam essa relação, assim como indicações das referências teóricas que conduziu tal estudo, a saber, estudos culturais e estudos da escola de Frankfurt. A resenha se orienta por dar uma visão panorâmica do problema e hipóteses das dissertações para em seguida, e ao final, proferir um comentário. A resenhas serve quase como um roteiro de leitura ou um pequeno resumo. Nessa conduta temas pontuais dos trabalhos não são passados em revista, como por exemplo o próprio horizonte teórico e como pequenos avanços poderiam ser apropriados para trabalho que você pretende desenvolver e quais os seus limites.
ResponderExcluirPor exemplo: vemos um modesta referência à noção de fã e termos correlacionados desenvolvidos em uma das dissertações resenhadas e que são temas pontos fundamentais para a sua pesquisa. O que verifico na resenha é apenas um reconhecimento de problemas em comum mas não uma problematização dos avanços da trabalho anterior para demonstrar quais o avanços e limites do que já fora realizado, não de forma geral, mas de modo específico, no que aquilo tem a dizer ao seu trabalho.
Creio que esse tipo de avaliação panorâmica não tenha permitido desenvolver um diálogo com as dissertações sobre temas específicos. Outro exemplo podemos encontrar na discussão sobre a dimensão da construção colaborativa do fenômeno (ponto fundamental para todos os trabalhos). A resenha limitou-se apenas a citar que tal questão estava no horizonte de uma das dissertações. É claro que a resenha poderia não ser conduzida por essa questão, e valorizar outro aspecto pertinente; mas outros ponto são tradados de forma muito semelhante. Creio que é por isso que os limites da dissertações que você aponta seriam temas e abordagens teóricas que possivelmente não tiveram grande tratamento no texto ou até mesmo um esquecimento, se é que seriam relevantes para as pesquisas anteriores. Nesse sentido a resenha aponta muito bem o limites gerais da dissertação e as possíveis contribuições a esse campo especifico de estudos a partir do trabalho a ser desenvolvido. Mas, como já dito, apropria-se muito pouco dos avanços e limites dos conceitos e questões que fazem parte da construção metodológica da dissertação. Tal relação com as dissertações resulta mais em uma crítica do resultados finais do que sobre as soluções metodológicas no seu decurso. Um diálogo do tipo poderia apontar com mais propriedade porque temas que não foram desenvolvidos nas dissertações resenhadas ganham uma expressão maior no trabalho que você pretende realizar. Seria preciso considerar e avaliar que se o trabalho não avança sobre certos aspectos do fenômeno se é de fato um problema metodológico e sendo o resultado incipiente para oferecer uma interpretação plausível, ou se de fato tais questões não eram fundamentais às pesquisas desenvolvidas.
Esse tratamento geral sobre as dissertações também não permitiu concluir como temas e questões tratadas em cada trabalho (e que sejam importante para você) se tocam, sendo um como consequência do outro, ou como em um trabalho possuindo um melhor tratamento sobre esse aspecto. Podemos perceber a partir das resenhas que um aspecto fundamental para os fenômenos analisados é o agregamento em torno de um objeto comum aos participantes da comunidade (em MIRC’s, ou de Fansubbers ou produtores de Fanfilms). Não diria que esse ponto não foi percebido, mas a consequências e relações possíveis não foram desenvolvidas nas resenhas escritas. Uma das resenha até aponta alguns limites do tratamento desse aspecto sobre as plataformas de comunicação on-line.
Krystal, achei a sua análise bem detalhada, mas muito descritiva, sem explicitar detalhes sobre a forma como o autor trabalha estas várias questões levantadas por você. Pela sua descrição, pude ter uma ótima visão da dissertação, mas fiquei me questionando sobre qual é a problemática que ele levanta, por exemplo, quando coloca como hipótese central “demonstrar que o advento dos fan films representa o surgimento de um novo tipo de tendência no cinema, que atravessa o estágio caseiro, vindo a culminar no surgimento de um cinema especializado, uma vez que é feito por “especialistas”, Por que ele pretende investigar isso? Ele parte de qual problema? Quando você aponta que a pesquisa oferece uma contribuição interessante em torno dos fãs, fiquei curiosa para saber como ele constrói esse conceito, que você diz ser uma contribuição interessante. Aí acho que, quando a gente detecta que o trabalho traz um avanço nas discussões sobre algum assunto, podemos explicar melhor em que sentido ele é inovador.
ResponderExcluirNo trabalho da Flaviana Rangel Pesset Gonzaga, a resenha também seguiu a linha descritiva, mas uma boa descrição, em que você pegou de novo as questões centrais da autora. Mas fiquei de novo na dúvida sobre a problematização do trabalho e porque ela constrói seus capítulos dessa forma, como por exemplo, porque escolheu o caminho de historicizar, no capítulo 1, o surgimento dos computadores as possibilidades que o meio encerra. Seria legal a gente começar a perceber as razões das abordagens em cada capítulo e em que os temas de cada capítulo contribuem para a construção da problematização da pesquisa.